A face humana da guerra: ex inimigos de guerra viram amigos

31/01/2012

Velasco (à dir.) recebeu Wilkinson em sua casa para um churrasco

Durante a Guerra das Malvinas, o britânico Neil Wilkinson era artilheiro antiaéreo no barco de combate HMS Intrepid quando abriu fogo contra um avião de combate Skyhawk. Ele disse que a imagem do avião caindo o acompanhou durante toda a sua vida. "Jamais imaginei que aquele piloto pudesse ter sobrevivido", disse.

Em 2007, o britânico assistiu na televisão a um especial sobre a guerra e viu quando o ex-piloto de caça-bombardeiro da Força Aérea Argentina, Mariano Velasco, narrou onde estava quando o tiro atingiu seu avião na batalha. Ao ouvir a história, Wilkinson percebeu que aquele era o piloto do avião que ele tinha atingido.

"Quando ele me reconheceu, procurou a Embaixada da Argentina em Londres e pediu ajuda para me localizar. Começamos uma amizade por redes sociais, como Facebook, até que ele veio à minha casa", lembrou Velasco.

O encontro ocorreu no fim do ano passado, mas só agora foi divulgado…

"Eu o esperei na porta de casa e meu coração estava acelerado. Quando nos vimos, nos abraçamos e choramos, choramos muito. Wilkinson tremia de emoção por ter certeza de que eu estava vivo", recordou. Velasco disse que jamais sentiu ódio pelo britânico. "Fomos apenas peças de circunstâncias", disse.

Isso me faz lembrar que muitos dos soldados em campo de batalha, cumprindo ordens, matam apenas por uma questão de disciplina (e, claro, porque ou você mata ou morre). A verdadeira guerra está sendo travada longe do campo de batalha, por pessoas bem vestidas, muito bem alimentadas, insensíveis e indiferentes com o sofrimento alheio de milhões, bilhões de pessoas. “Fodam-se”, pensam aristocratas inescrupulosos sedentos por poder, dinheiro ou simplesmente status.

Mas diferente destes monstros que ditam ordens frias para seus subordinados, mandando milhares para uma morte quase certa em longínquos campos de batalha, muitos soldados ainda guardam seu lado humano. Por isso que eles acabam desenvolvendo fortes laços de amizade entre si. Afinal, sabem os combatentes, “aqui, estamos lutando pela gente, não pelos generais e governantes”. Às vezes, porém, este processo irradia para além das trincheiras aliadas...

Ex-inimigos agora jogam amistosamente futebol entre si em pleno campo de batalha

Em um inverno do ano de 1914 (Primeira Guerra mundial), houve uma batalha onde alemães haviam cavado uma enorme trincheira de um lado, e franceses e ingleses do outro. Daqueles largos buracos lamacentos eles atiravam uns contra os outros e muitos morriam diariamente.

Passaram-se dias de batalha até que os sons de tiros e explosões cessaram. Era natal. Uma estranha calma reinava. Os ingleses que observavam com binóculos a trincheira alemã presenciaram uma inusitada surpresa: Os alemães estavam pendurando árvores de natal e muitas velas sobre sua trincheira, de maneira que os ingleses pudessem ver. Ouviram então os soldados alemães cantando “Noite Feliz”.

Foi então que todos saíram das trincheiras com cartazes dizendo algo do tipo “Você não atira, eu não atiro”. Logo a trégua estava consolidada e os até então inimigos se encontraram, confraternizaram e decidiram que não lutariam mais uns com os outros. Todos estavam juntos na terra de ninguém (espaço conhecido entre as trincheiras) conversando, bebendo cerveja, celebrando o natal, contando piadas, até que surgiu uma bola e começaram a jogar uma partida de futebol com 60 jogadores em cada time: alemães x ingleses.

Os generais não gostaram nada daquela história: “Se matem!”, ordenavam de ambos os lados. Mas quando os tiros recomeçaram, passavam longe, muito longe de acertar alguém. Todos os batalhões acabaram substituídos para que a “guerra pudesse prosseguir”. A “Trégua de Natal de 1914”, como ficou conhecida, ganhou até memorial e ainda é celebrada como um evento da paz e verdadeiramente digno de ser lembrado.

Cerimônia para relembrar a Trégua de Natal de 1914Este tipo de trégua entre tropas inimigas é recorrente na história, ainda que incomum. Exemplos como estes nos lembram de que há seres verdadeiramente humanos lutando dos dois lados. Pessoas que poderiam ser amigas (ainda mais num mundo onde a internet permite conhecer gente do outro lado do mundo). Os exemplos desta trégua e dos veteranos da Guerra das Malvinas nos lembram de que sim, isso acontece de verdade. Muitas pessoas de lados diametralmente opostos, no fundo, podem e querem ser amigas e conviver em paz para desfrutar a felicidade que é viver.

A amizade entre os ex-combatentes de lados opostos na Guerra das Malvinas, a Trégua de Natal e outros tantos episódios, nos lembram de que debaixo de tanta crueldade perpetrada por homens poderosos ao longo da história, ainda resta uma humanidade verdadeiramente humana.

PS: a título de curiosidade, as Ilhas Malvinas ficam a apenas 500km da costa Argentina, mas estão há mais de 12.000km da Inglaterra. A vitória inglesa sobre a Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982, permitiu ao governo conservador de Margaret Thatcher obter a vitória nas eleições do ano seguinte.