
Eu não gosto da religião organizada. Ainda que traga alguns benefícios, a balança da história pesa contra sua existência. Milhões pereceram em guerras religiosas ou que, entre outras coisas, tinham a religião como um dos componentes da discórdia entre dois ou mais grupos. Além disso, tem ainda o uso político que clérigos fazem da religião, nem sempre em prol de coisas construtivas.
Ainda assim, eu seria o primeiro a defender o direito de uma pessoa de praticar sua fé (desde que num âmbito privado). Se a pessoa quer orar para seu deus, que o faça em paz e na certeza de que ninguém lhe prejudicará por isso. Para sintetizar este pensamento, cito o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos que estabelece:
“Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.”
É importante frisar: as pessoas podem sim manifestar sua religião. Elas podem viver de acordo com os preceitos que julgam corretos. Se as mulheres decidem deixar o cabelo crescer e passam a usar saias na altura do joelho, ou se cobrem o corpo inteiro com uma burka, ou se os homens se abstém de sexo antes do casamento ou de carne de porco, não importa: as pessoas devem podem viver à sua maneira, desde que observados os direitos do próximo.
Mas alguns religiosos parecem não se conformar com o fato do vizinho venerar outro deus. Pior: há aqueles que não admitem que seu deus seja adorado de uma forma diferente, “herética”, àquela que a pessoa julga ser a correta. Este tipo de intolerância religiosa está acontecendo em diversos lugares do mundo neste momento, mas na Nigéria ganha contornos de guerra civil.
Centenas de pessoas precisaram deixar suas casas no norte da Nigéria, em meio a ataques do grupo extremista islâmico Boko Haram (que significa: “Educação Ocidental é um pecado”) que já deixaram pelo menos 31 mortos nos últimos dois dias. Em uma ocasião, homens armados invadiram uma reunião de um grupo cristão em Mubi, na região de Adamawa, fronteira com Camarões, e abriram fogo, matando pelo menos 17 pessoas. Depois desse incidente, os extremistas invadiram uma igreja cristã em Yola, capital de Adamawa, e abriram fogo, matando pelo menos outras oito pessoas.
Só no último ano, mais de 500 pessoas foram mortas pelo Boko Haram, que defende a implementação de uma lei islâmica no norte da Nigéria e quer a expulsão dos cristãos do seu território. No Natal, os extremistas realizaram uma série de ataques a bomba que deixaram 37 mortos só em uma igreja perto do capital, Abuja.
No Brasil, temos um governo central mais forte que a Nigéria, impedindo que a coisa chegue ao ponto que chegou por lá. Não obstante, temos tristes exemplos de intolerância entre religiosos, apenas para citar alguns do ano passado:
- Josinaldo Gomes de Lima, 25, fiel da Assembleia de Deus, invadiu um sítio temático, o Arraial de São João, na cidade de Campina Grande (Paraíba), e quebrou imagens de santos e danificou documentação histórica da cultura popular, como fotos e reprodução de poesias. Alguns objetos, como uma máquina fotográfica “lambe-lambe”, tem mais de cem anos.
- Duas tentativas de homicídio - uma contra um pai de santo e a outra contra um membro da religião afro - foram registradas pela Comunidade Tradicional de Terreiro da Cidade de Manaus. “Foram três homicídios e três tentativas, além de um assalto à mão armada”.
- A Justiça do Trabalho de Mato Grosso condenou uma empresa de Cuiabá a pagar indenização de R$ 5 mil a uma trabalhadora que teria perdido uma vaga de emprego por causa da religião. A auxiliar administrativo Daniela Mendes Ribeiro passou por uma entrevista e pretendia trabalhar em uma ótica. Segundo ela, uma funcionária teria comentado com a diretora da empresa que a candidata seria Testemunha de Jeová, mas que não frequentava mais a religião. Foi quando o tratamento mudou. "Ela me disse que era ativa na igreja e que não poderia ter uma pessoa que não participava mais da religião. Então, por isso, a vaga não era mais minha", conta Daniela.
- O MPF do Ceará abriu ação civil pública contra a entidade que representa as Testemunhas de Jeová no Brasil. O problema ocorre quando um leigo deixa a religião, seja por vontade própria ou como punição. Os “desassociados” passam a sofrer, por orientação da congregação, atos que restringem o seu relacionamento e convivência com os antigos irmãos na fé, mesmo que sejam parentes (irmãos, pais, cônjuges, etc), não sendo mais permitido que lhes dirijam um simples “Oi”, o que acarreta em desagregação familiar e social. Essa tática é adotada, segundo a pregação das Testemunhas de Jeová, para o desassociado “cair em si” e retorne a Jeová.

Hoje é Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Um dia para os religiosos refletirem e praticarem aquilo que a grande maioria prega: amor ao próximo. Tanto por isso, não devemos segregar, discriminar, maltratar ou causar qualquer mal a qualquer ser humano apenas porque ele não compartilha das mesmas convicções religiosas. Acima de tudo, devemos, sim, amar uns aos outros. Isso sim é construtivo. Qualquer deturpação desta filosofia básica de muitas religiões traz consequências negativas a todos os envolvidos.
Ainda devemos lembrar-nos dos ateus, estes descrentes, que também sofrem represálias apenas por terem uma cosmovisão diferente daquela da maioria religiosa. Por isso vale lembrar que a tolerância deve-se estender a todos. A convivência pacífica entre os diferentes é possível, benéfica e só tem a tornar o mundo um lugar melhor para todos.



