Caça de onças no Pantanal: covardia em nome da diversão

31/01/2012

Carcaças de animais apreendidas pela Polícia Federal no Pantanal de Mato Grosso do Sul

No Pantanal de Mato Grosso do Sul, onças e outros animais em extinção foram mortos por turistas brasileiros e estrangeiros. Cada um dos turistas pagava de US$ 30 mil (R$ 49 mil) a US$ 40 mil (R$ 64,8 mil) para praticar expedições de caça aos animais. Na ação desencadeada na noite de quinta-feira (5), a Polícia Federal descobriu que os caçadores se reuniam na fazenda Santa Sofia, localizada em Aquidauana (159 quilômetros de Campo Grande), de onde partiam os safáris.

A dona da fazenda é a pecuarista Beatriz Rondon. Ela é ligada ao setor de proteção ambiental do Estado e presidiu a Sociedade para a Defesa do Pantanal, uma organização não governamental de defesa do meio ambiente. Além disso, ela conseguiu com que a fazenda fosse reconhecida como uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

Poucas coisas são mais desumanas do que assassinar cruelmente, a sangue frio, um animal indefeso por pura diversão. Isso só vem a corroborar com a ideia de que muitos seres “humanos” pensam que animais sencientes podem ser tratados como itens descartáveis. É o que o psicólogo Richard D. Ryder definiu como especismo, ou seja, uma discriminação para com os animais, atribuindo valores e direitos diferentes apenas por serem de outra espécie.

Beatriz RondonClaro que animais nunca terão o mesmo tratamento que um ser humano, mas como espécie dominante devemos garantir os direitos essenciais aos animais que não podem se defender de nossa invasão de seu espaço. Livrar-lhes da dor desnecessária e do próprio contato com o ser humano, deixando-os exercer sua natureza é o mínimo que podemos fazer. Infelizmente, há pessoas que não conseguem sentir compaixão por animais. E ao ver ali aquela gazela tranquila com seu filhote, comendo serenamente um pouco de grama, não pensam duas vezes antes de meter uma bala na indefesa criatura e ainda comemorar a morte desta (talvez, anotando num papel para ver quem faz mais pontos).

Se você não se importa muito com o bem estar dos bichos, talvez devesse se preocupar com o seu. Atos violentos contra animais, por exemplo, têm sido reconhecidos como indicadores de uma psicopatologia que não se limita em agir apenas sobre estas criaturas. Segundo o cientista humanitário Albert Schweitzer, "quem quer que tenha se acostumado a desvalorizar qualquer forma de vida corre o risco de considerar que vidas humanas também não têm importância".

Também Robert K. Resler, que desenvolveu perfis de Assassinos em Série para o FBI, "assassinos freqüentemente começam por matar e torturar animais quando crianças". Estudos têm agora convencido que atos de crueldade contra animais podem ser o primeiro sinal de uma patologia violenta que poderá incluir, no futuro, seres humanos.

Há uma diferença gritante entre o caçador que caça para sobreviver (como ocorre no próprio Pantanal) ou para se defender e aqueles que o fazem por pura e simples crueldade. Como num crime premeditado friamente, no caso supracitado as pessoas negociavam, pagavam e se organizavam para irem a um safari que tinha tudo para ser um bonito passeio de família. Exceto pelos sucessivos tiros, sons de animais agonizantes e o cheiro de sangue permeando o ar. Tudo para se divertirem ao ver um animal morrendo com um balaço que saiu de suas covardes espingardas. Eu estou em outro mundo? No meu mundo, sexo, cinema, barzinho, churrasco com amigos, videogame e coisas do tipo são diversões garantidas, saudáveis (ok, o churrasco nem tanto) e inocentes.

No vídeo acima, podemos ver caçadores ao lado de Beatriz Rondon abatendo um animal, sorrindo e sendo cumprimentados pelos demais. Ninguém percebe o quão doentio é uma caçada?

Onde está a beleza, onde está a diversão em ver um animal que está em seu habitat ser morto, sangrando até morrer? Como chegamos à este nível de bestialidade, de perversão, de primitivismo? Pior é saber que a punição será branda. Mate um ser humano e você estará enrolado com a justiça (ok, no Brasil, nem tanto). Mate milhares de animais, e isto lhe custará algumas cestas básicas e um pouco de serviço comunitário.

Novamente friso que não devemos tratar animais como gente, porque não o são. Mas há um grau de especismo em nossas leis e na forma de pensar que deixam a fauna vulnerável aos nossos caprichos e desejos mais doentios de uma satisfação sádica. Se quisermos um mundo melhor, devemos nos atentar a estas questões. Cabem aos mais evoluídos repreender parentes e conhecidos que praticam qualquer tipo de violação injusta do bem estar alheio, seja bicho ou não. E cabem às autoridades de um local criar leis mais rígidas para coibir práticas que levarão ao sofrimento de animais indefesos e, potencialmente, muitos seres humanos.