Geração de filhos mimados. Afinal, qual é o problema em perder?

08/07/2010

Afinal, qual o problema de perder? Qual o problema em sentir raiva, tristeza, solidão? Por mais que estes sentimentos sejam desagradáveis, eles são partes indissociáveis da experiência de ser um “ser humano”, ou seja, alguém com consciência, vontades, desejos, medos. Ainda assim, muitos pais querem privar seus queridinhos e fofinhos filhos deste tipo de emoção negativa. Cercam os mesmos de atenção, amor, brinquedos, remédios, comida e proteção. Criam uma redoma impenetrável de coisas ruins, um mundinho perfeito, onde o menor choro ou “dengo” do filho é resolvido prontamente pelos pais “exemplares”.

Notas baixas? Vamos falar com o professor! O amigo tem um brinquedo novo? Vamos comprar um melhor! O cachorro cresceu e não é mais fofinho? Vamos descartá-lo e comprar um novo filhote! O delegado prendeu o filho porque ele estava se divertindo espancando putas nas ruas (quem não se lembra deste episódio)? Vamos até a delegacia livrar nossos filhinhos inocentes daquele lugar sujo e indigno. E assim os pais vão camuflando a realidade. Mas o mundo é muito grande e algumas coisas não podem ser evitadas. Por exemplo, a seleção perder um jogo na Copa. Pronto! O mundo perfeito ruiu!

Agora, o filho mimado não poderá pedir ao papai que “faça a seleção ganhar”. Tampouco o dinheiro poderá comprar isso. E aí vem a tristeza. Mas assim como o sol queima rápida e profundamente a pele de alguém que há muito tempo não se bronzeia, a tristeza vem galopante sobre a alma do filhinho querido. Parece arrasar toda aquela felicidade de faz-de-conta. Chega destruindo muros de proteção, desnudando um mundo diferente daquele cor-de-rosa que recobre as paredes do quarto. Um mundo onde consta no dicionário a palavra “derrota”, “perder”, “tristeza” entre outras tantas.

Mas o mundo não é só coisa ruim. Claro que não. A volta por cima de quem até então só perdia, a recuperação de quem passou meses num quarto de hospital, a aprovação no vestibular de quem está há anos tentando uma vaga. Nestas situações se formam pessoas capazes de enfrentar as adversidades da vida e comemorar cada conquista com uma paixão que não pode ser vista nos filhos mimados, simplesmente porque eles não têm a noção do valor de qualquer vitória, por menor que seja. E nessa montanha russa de acontecimentos, sejam bons ou ruins, vamos experimentando, enriquecendo, aprendendo, sofrendo, alegrando mas, sobretudo, vamos vivendo! Sim, vamos nos sentindo vivos!

O que o amanhã nos reserva eu não sei! E isso é maravilhoso! Se o que está por vir for bom, ótimo! Se for ruim, este mesmo amanhã terá que nos encarar e irá tremer após ver nossas cicatrizes que fomos adquirindo na luta da vida. E é esta riqueza de experiências que nos ajudará a chegar no fim da vida e falar: “Valeu a pena...”

PS: não estou julgando que os filhos e pais do vídeo se encaixam neste perfil. O mesmo apenas despertou esse tipo questionamento em mim e, por conseguinte, este post. Serve, antes de qualquer coisa, como uma encenação da metáfora de filhos mimados.