Casamento Gay na Argentina: um direito Secular

20/07/2010

Casamento gay coletivo realizado em São Paulo pela Igreja da Comunidade Metropolitana

Recentemente, na Argentina, foram aprovadas leis que reconhecem civilmente o casamento entre homossexuais, dando-lhes os mesmos direitos que casados heterossexuais possuem. Não foi surpresa o protesto furioso da igreja e dos conservadores daquele país contra essa lei. Se perante os olhos do deus da mitologia cristã as pessoas são tratadas de forma diferente de acordo com sua opção sexual, o mesmo não acontece (ou pelo menos não deveria) no campo civil onde o Estado atua.

Embora eu já esteja acostumado a ouvir ofensas furiosas dos religiosos contra homossexuais, na Argentina alguns conseguiram surpreender. Vejamos o que rolou por lá enquanto estavam debatendo a lei sobre união civil entre pessoas do mesmo sexo:

Durante toda a semana, a sociedade esteve totalmente tomada pelo debate do projeto de lei. Na televisão, em todos os programas, dos mais populares aos mais elitistas, se viam pessoas discutindo o casamento igualitário, o termo politicamente correto adotado por aqui da união civil entre homossexuais. A direita destilou todo tipo de preconceito. Um deputado ultra conservador da província de Salta (ao norte) declaro: “não deixo meu filho ir à casa de um casal gay porque na hora de dormir, um deles pode aparecer de pijama com um pompom rosa na cabeça”. Em outro programa, um dos mais tradicionais da Argentina, em que uma espécie de Hebe Camargo local recebe os convidados para um almoço, a apresentadora pergunta a um artista assumidamente homossexual: “Você não tem medo que um casal gay que adota uma criança, no futuro, possa estuprá-lo?”. A representante da Opus Dei, uma advogada que defende representantes do governo militar faz o discurso do “isso não é normal, Deus uniu os homens e as mulheres, não os de mesmo sexo”. (Fonte: Vi O Mundo)

Sejamos pragmáticos: pessoas podem se casar. Não importa o sexo, opção sexual, se o pênis é verdadeiro ou implantado, se os seios só cresceram depois dos 30 anos, se é hermafrodita, enfim, nada importa. Mas isso apenas na esfera civil, ou seja, perante o governo do país aquelas pessoas formam um casal. Contudo, a religião está fora da alçada do Estado. O deus da mitologia abraâmica é claramente machista e homofóbico. Ele odeia homossexuais e verdadeiramente os quer mortos. Portanto, enquanto os gays tem o direito de se casar perante o Estado, não o podem fazer nas igrejas dos descendentes de Abraão (cristianismo, judaísmo e islamismo).

Qualquer casamento gay feito numa “igreja” que se auto denomine “cristã” fere mortalmente um dos dogmas cristãos (tudo bem, o Cristo da bíblia não tem nada contra gays, mas seu pai...). Logo, não tem validade “religiosa” verdadeira, embora isso seja incapaz de remover o significado “espiritual” que o casal sente ao ser abençoado por um clérigo de qualquer denominação. Também o casamento é de foro íntimo. Se meu vizinho é casado, solteiro ou viúvo, isso não me diz respeito. Se ele pratica sexo seguro, sexo à três, se é homossexual ou travesti, isso tampouco importa para mim ou para qualquer um. Quem não quiser, simplesmente não se relacione. Ora, não há leis obrigando que sejamos “amigos” de pessoas que não gostamos.

Então, afinal, por que diabos (opa!) as igrejas tanto pegam no pé do que as pessoas fazem com suas vidas, com suas intimidades? Uma coisa é você ser um conselheiro de outrem em busca de um mundo melhor, a outra coisa é tentar controlar a vida alheia para construir o SEU mundo melhor. As religiões não devem se intrometer nas questões de foro íntimo, como o casamento. Felizmente, embora tenham tentado, não obtiveram sucesso. Louvemos, sim, ao estado laico. Por aqui, como na foto acima, podemos fazer casamentos gays coletivos sem que nenhum deles seja condenado à morte.