Mais de 70% dos brasileiros são contra o aborto, mas milhões o praticam

14/07/2010

Menina de 9 anos que foi estuprada pelo padrasto e acabou grávida de gêmeos

Um levantamento realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e divulgado em Santiago, no Chile, mostra que 72,7% dos cidadãos brasileiros se opõem à legalização do aborto. (Fonte: IG)

Há um problema real em legalizar o aborto. A partir do surgimento do feto, ou seja, quando o embrião atinge 9 semanas de gestação e já tem os principais órgãos e sistemas sensoriais formados (embora ainda não plenamente funcionais), podemos dizer que o aborto é sim um assassinato contra um ser humano. Neste contexto, se tivéssemos muitas pessoas abortando a gravidez por ter sido algo meramente “indesejada”, teríamos praticamente um genocídio indiscriminado. E as pessoas fariam isso de mente tranquila: sexo inseguro e irresponsável, porque se engravidar basta abortar.

Contudo, há gravidezes indesejadas e cruéis. Como quando a mulher é estuprada, ou quando o feto possui má-formação ou quando há grande risco para a saúde da mulher. Neste caso, deve-se permitir o aborto sob condições muito bem estabelecidas. Em Portugal, estas condições são bem claras e algumas interessantes. Por exemplo, o aborto é permitido até às 16 semanas em caso de violação ou crime sexual e até às 24 semanas em caso de malformação do feto. O governo supervisiona todo o processo, inclusive com um período onde a grávida é obrigada a refletir por alguns dias antes de confirmar que deseja abortar.

Não estamos aqui discutindo os melhores prazos ou detalhes da legislação portuguesa, mas apontando um fato importante: o Estado acolhe a grávida e esta passa a poder contar com hospitais e médicos especializados para realizar o aborto com segurança. Isto evita situações como a que podemos ler abaixo (lembre-se que 72,7% dos brasileiros se opõem à legalização do aborto):

Há uma realidade mortal escondida por trás dos abortos no País. De acordo com estimativas do Ministério da Saúde, entre 729 mil e 1,25 milhão de mulheres se submetem ao procedimento anualmente no Brasil. Destas, pelo menos 250 morrem.
(...)
E, quando não morrem, por vezes essas mulheres acabam com sequelas irreversíveis. “Algumas colocam produto químico ou objeto metálico no útero para abortar. A chance de infecção e perfuração é muito grande, 1/3 de quem tenta abortar acaba procurando ajuda no hospital”, afirma Morais Filho. (Fonte: IG)

Vemos uma população essencialmente hipócrita, que condena o aborto, mas o pratica numa escala impressionante. Para sustentar esta posição desprezível de evitar uma legislação para resolver este problema, as igrejas jogam pesado e colocam todos seus fiéis para pressionar o governo e tudo fica como está: charlatões matando mulheres em clínicas clandestinas, medicamentos abortivos vendidos pela internet, mulheres morrendo com úteros perfurados, etc.

Aos que acham que a igreja não tem mais força, a questão do aborto mostra a força que ela ainda possui, pois, tais projetos apenas não vão para frente porque os políticos tem medo de enfrentar a igreja e seus fiéis (e potenciais votantes!). Triste observação e triste constatação que estas pesquisas nos trazem. Vamos aguardar para que o laicismo se imponha e tenhamos este problema de saúde pública resolvido logo, para que os vivos não tenham que morrer por aqueles que sequer nasceram ainda.