
Em 2002, segundo o colunista e católico praticante Ross Douthat, o então cardeal Joseph Ratzinger disse a uma plateia na Espanha: “Estou convencido de que a presença constante na imprensa dos pecados dos padres católicos, especialmente nos Estados Unidos, é uma campanha planejada para desacreditar a Igreja Católica”. Na semana passada, o The New York Times – aparentemente o centro da “campanha planejada” – republicou a cópia de uma carta assinada por Ratzinger em 1985.
A carta instava leniência no caso do reverendo Stephen Kiesle, que havia amarrado e torturado sexualmente dois meninos em uma propriedade da Igreja na Califórnia. Os superiores de Kiesle haviam escrito para o gabinete de Ratzinger, em Roma, pedindo-lhe para expulsar o criminoso do clero. A resposta veio cheia de conselhos morais. “O bem da Igreja Universal”, ele escreveu, “deveria ser levado em conta acima de tudo.” Deveria ser entendido que, “particularmente tendo em vista a juventude” do padre Kiesle, um grande “detrimento” poderia ser causado “dentro da comunidade dos fiéis a Cristo” se ele fosse afastado. O bom padre tinha então 38 anos. Suas vítimas, 11 e 13. Nas décadas seguintes, Kiesle arruinou a vida de mais algumas crianças, até ser finalmente preso por causa de uma nova acusação em 2004. (Fonte: Bule Voador)
Nunca me convenceu o argumento de que “a igreja é cheia de pedófilos”, ou “cheia de padres estupradores”, como forma de desqualificar a instituição. Embora não ache que valha a pena religião alguma (prefiro o modo dos cátaros, ligados diretamente ao seu deus), ainda assim sabemos que há muita gente boa e bem intencionada no meio. Pessoas cruéis ou mal intencionadas existem em todos os lugares. Isso é intrínseco a um indivíduo em específico, não me parecendo correto generalizar o particular para o todo. Temos pessoas boas nas igrejas, na política, na polícia, na direção de grandes empresas, etc.
Nesta linha de raciocínio, muitas vezes os bons precisam ignorar a existência dos detratores, bem como seus atos, de forma que eles mesmos possam continuar exercendo seu papel (quem sabe, inclusive, para tentar compensar os que prejudicam o trabalho como um todo). Contudo, isso só faz sentido quando a pessoa boa tem menos poder que a pessoa má. Afinal, se eu tenho o poder, não permitirei que outrem perpetue prejuízos a quem quer que seja. E, assim, neste cenário os bons vão vencendo os maus.
Agora, não podemos dizer que uma pessoa é boa quando ela tem o poder para agir, mas nada faz perante as obras destrutivas de pessoas de má índole. Neste caso, inclusive, podemos até mesmo considerá-la coautora, cúmplice mesmo, daquela gente ruim. Vamos analisar um breve exemplo. Você contrata seu irmão para cuidar das crianças de uma creche que você possui. Você fica sabendo que ele estuprou e torturou uma pequena aluna. Você não tem o poder de prender seu irmão, mas com certeza pode demiti-lo e evitar a recorrência do crime. Você o faria?
Pois bem. Os escritores Richard Dawkins e Christopher Hitchens, dois importantes ateus britânicos, planejam uma emboscada legal para prender o papa Bento 16 durante sua visita à Grã-Bretanha justamente por ele ter, supostamente, encoberto casos de abuso sexual ocorridos em instituições da Igreja Católica. Além de não demitir padres envolvidos em casos de abusos sexuais, o atual papa sistematicamente escondeu os casos para que ninguém viesse a difamar a “imaculada” e “santa” Igreja Católica Apostólica Romana. O papa é um criminoso do pior tipo, pois, faz tudo com plena consciência das consequências e extensão dos danos. Este é o tipo de comportamento que, para mim, faz todo sentido ser condenado e punido seja na igreja ou em qualquer outro lugar. Tanto quem pratica um crime quanto quem o incentiva (ou co-participa), é criminoso e como tal deve ser julgado. Espero ver o papa atrás das grades, mas sabemos todos que isso é quase impossível. Impunidade, como podemos ver, existe em todo lugar.




