A psicologia modifica sua mente e seu cérebro

17/03/2010

O sistema nervoso é extremamente plástico e seu desenvolvimento depende amplamente do seu relacionamento social. Assim, o psicólogo clínico deve ter consciência que a psicoterapia tem um efeito na atividade mental do paciente graças a sua capacidade de promover uma transformação no funcionamento da atividade neural do sujeito. Em outras palavras, a psicoterapia funciona porque altera o funcionamento de áreas específicas do cérebro através da modificação de padrões de comunicação neural.

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terapias exclusivamente psicológicas em pacientes obsessivos-compulsivos produzem alterações cerebrais semelhantes a terapias biológicas calcadas na prescrição de drogas psicotrópicas

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tanto a psicoterapia quanto a psicofarmacoterapia produziram exatamente as mesmas alterações neuronais sugerindo que ambas funcionaram através de mecanismos semelhantes. Neste caso específico, manipulações químicas ou comportamentais parecem alterar o funcionamento de certos sistemas serotonérgicos.

Talvez, não tenha ficado muito claro o que estes trechos de texto significam. Sendo curto e direto: as sessões de um psicólogo, aquelas conversas aparentemente inofensivas com o terapeuta, literalmente, modificam a estrutura física do seu cérebro da mesma maneira que certos medicamentos parecem fazer. Neste sentido, a psicoterapia e psicofarmacoterapia têm a mesma capacidade de modificar o padrão de comunicação sináptica. Ao menos, assim apontam os estudos de Jesus Landeira-Fernandez (Psicólogo pela USP e Doutor pelo Departamento de Psicologia da Universidade da California em Los Angeles), Antônio Pedro de Mello Cruz (Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela USP), e o professor de neurociência da conceituada universidade Johns Hopkins, David J. Linden, em seu artigo na revista Nature.

As características ou estruturas da mente humana são comuns à nossa espécie. Isto porque, dado o nosso material genético, todos nós produzimos o mesmo sistema nervoso. No entanto, variações específicas na transmissão do impulso nervoso, através da atividade sináptica, definem a atividade psicológica do indivíduo, e é exatamente isso que dá forma a sua personalidade e individualidade (vide definição de atividade psicológica apresentada na introdução). Como antecipou o psicólogo experimental americano, Donald Hebb (1949), é justamente na transmissão sináptica que ocorrem processos plásticos produzidos pela interação do sujeito com seu meio, no sentido de que sinapses podem ser alteradas, tornando-se mais fortes ou mais fracas. Dessa forma, entendemos como relações sociais têm o poder de alterar o funcionamento neural. Resta saber, agora, que relações sociais presentes na psicoterapia tem essa função.

É interessante notar como realmente mudamos ao longo do tempo, seja através de um processo gradual, seja através de um processo traumático, brusco, repentino. Quantos comportamentos que tínhamos no passado que hoje, naturalmente, já não temos mais (e vice-versa)? É como a convivência com certas pessoas, que faz a gente mudar para melhor ou pior, ou que simplesmente nos modifica. Ou aquela batida de carro que faz com que você passe a dirigir de maneira mais prudente (ou, no pior caso, não dirigir mais). Em maior ou menor grau, somos afetados pelo meio e nosso cérebro se ajusta para lidar melhor com o cenário mais atual. E quando ele se ajusta passamos a pensar (na falta de um termo mais específico) de maneira diferente, já que o próprio pensamento começa a fluir por vias diferentes do nosso cérebro (i.e. diferentes ligações sinápticas).

Isso é uma evidência a mais de que uma psicoterapia feita corretamente por um competente psicólogo traz mudanças práticas no nosso modo de encarar certos fatos, proporcionando a solução para os problemas que pretendemos resolver durante as sessões. E uma das vantagens da psicoterapia sobre os remédios, é que a primeira é capaz de abordar a causa do problema, enquanto o remédio só é capaz de abordar suas conseqüências (não que isso o torne menos importante). Se isso fosse algo mais difundido e se as pessoas tivessem mais conhecimento sobre os papéis da psicologia, teríamos mais pessoas procurando psicólogos e, quem sabe, a valorização de uma profissão tão importante e delicada que é esta que trata dos problemas mais íntimos das pessoas.

Por fim, segue trecho explicando uma das experiências realizadas elos cientistas para chegar às conclusões apresentadas neste post:

Tratava-se de grupos de pacientes obsessivos-compulsivos que foram submetidos aos seguintes tratamentos: psicoterapia comportamental ou farmacoterapia com antidepressivo (no caso, a flouxetina). Todos esses pacientes tiveram o funcionamento de seu cérebro acompanhado sistematicamente, antes e depois dos tratamentos, através de tomografias computadorizadas por emissão de pósitrons (PET Scan). Esta técnica de neuroimagem permite não apenas um mapeamento cerebral preciso, mas também é capaz de identificar qual área cerebral encontra-se mais ativada e um determinado momento. Os resultados foram bastante conclusivos. O tratamento com antidepressivo e psicoterapia promoveram não só os mesmos resultados clínicos relacionados com os sintomas dos pacientes como também modificaram o padrão de funcionamento de tecido neural desses pacientes. Mais interessante ainda, ambas as formas de tratamento produziram alterações neurais na mesma estrutura neural: o núcleo caudado. Dado o impacto da descoberta de que psicoterapia promove um efeito em determinado transtorno psicológico graças à sua capacidade de alterar o padrão de funcionamento da atividade neural, esses mesmos resultados foram replicados de forma positiva pelo mesmo grupo alguns anos mais tarde (Schwartz e colaboradores, 1996).