

Um lado do Japão é ainda fortemente apegado às tradições, mesmo em meio a um mundo onde a tecnologia está à frente, talvez, de todos os demais países do planeta. Contudo, há um lado escravo do trabalho e da modernidade, a fim de obter dinheiro e reconhecimento entre seus pares. E por causa desta rotina, o povo japonês está ficando mental e fisicamente doente. Segundo um levantamento do Ministério da Saúde, do Bem-Estar e do Trabalho do Japão, 355 trabalhadores adoeceram gravemente por sobrecarga de trabalho em 2006 e cerca de 150 morreram. Mais de 30% dos japoneses trabalham mais de 12 horas por dia
Em fevereiro de 2002, o japonês Kenichi Uchino ocupava o cargo de gerente de controle de qualidade numa fábrica de automóveis da Toyota, na província de Aichi, quando caiu fulminado em pleno expediente, às 4 horas da manhã. Tinha apenas 30 anos. A causa da morte foi ataque cardíaco decorrente de excesso de trabalho. Apenas naquele mês ele havia cumprido 106 horas extras. Passara todo o semestre anterior trabalhando, pelo menos, oitenta horas a mais por mês. A maior parte dessas horas extras não era remunerada.
Esta cultura japonesa de sacrifício pessoal, pelo país ou mesmo pela empresa, os leva a não ter tempo para viverem suas próprias vidas. Reflexo disso são certas criações dos japoneses que visam melhorar a qualidade de vida, mas mostram um lado patológico da sociedade.
O primeiro e mais emblemático é um bebê robô, chamado Yotaro, que se movimenta e faz várias expressões faciais. Ele ri, chora, espirra e ainda emite alguns sons comuns de pessoas com menos de um ano de idade. Ele servirá para educar as pessoas sobre como cuidar do filho. Ora, estamos mesmo fadados ao individualismo extremo se seguirmos neste caminho. Não é gostoso trocar experiências com um médico, com parentes e, principalmente, com os próprios pais para saber como cuidar de uma criança? Se não é o mais “gostoso”, certamente é muito mais humano do que recorrer a uma máquina. Estaremos nos distanciando do convívio social e do nosso lado humano, animal mesmo, se continuarmos seguindo nesta linha. Os criadores do robô acham que isso incentivará os japoneses a terem mais filhos. Mas como pode, se o problema não é como cuidar de uma criança e sim ter uma criança. Afinal, num mundo onde você só tem tempo para o trabalho, não há espaço para família.
O outro é um lava rápido de cachorro! É perfeitamente compreensível que uma família aproveite a ida a um shopping para dar banho e tosar seu animal de estimação. Mas sabemos que muitos, na verdade, fazem isso porque não tem lá muito tempo (ou vontade) para dar banho nos seus animais. Puxa, a graça de ter um animal de estimação é justamente poder cuidar dele, é toda aquela troca de carinho (e cães são mestres nisso). E ao invés de aproveitar para dar banho no seu bicho (e ver aquela cara de “pena” que muitos deles fazem) e cuidar do bicho como se fosse seu próprio filho transmitindo todo aquele amor... não! Você coloca ele num “lava rápido” que lapida a relação homem x animal, nos torna cada vez mais insensíveis, dando a sensação de que os animais de estimação são cada vez mais “objetos de consumo” do que um fiel companheiro e amigo.
Espero que a metamorfose que o povo japonês passa, se transformando cada vez mais em robôs trabalhadores e consumistas, não se alastre ao resto do mundo. Já somos por demais individualistas e podemos prescindir destas “invenções” que em nada de humanamente bom tem a nos agregar.



