Estátua de bronze de Nossa Senhora Aparecida fere o estado laico

08/03/2010

O deputado estadual Pedro Augusto Palareti pretende construir uma estátua de bronze de 20 (vinte) metros de altura de Nossa Senhora Aparecida na Baía de Guanabara, no bairro de Charitas. Um projeto que usará alguns milhões de reais do erário público para construir uma imagem de uma santa católica, algo que fere mortalmente a laicidade do Estado. Enquanto o Rio de Janeiro agoniza em tiroteios, hospitais precários e afunda debaixo de enchentes, os deputados mostram-se mais uma vez completamente desconectados da realidade e pretendem investir o dinheiro num artigo supérfluo e proselitista. Trata-se da lei nº 3.289, de 11 de novembro de 1999, que permite que a estátua seja construída a qualquer momento. A intenção era fazê-la ano passado, mas felizmente não foi para frente. Recentes notícias, contudo, indicam que querem retomar o projeto.

Os religiosos devem entender que eles têm pleno direito de construírem uma estátua de bronze ou mesmo de ouro para seus santos (embora isso me pareça mais com idolatria ou ostentação do que fé). Mas devem fazer isso com o dinheiro deles, não dos outros. Simplesmente porque não é justo a um muçulmano, ou budista ou hindu, bancar os gastos de outra religião. E mesmo que houvesse consenso entre os cidadãos a favor da construção de uma estátua, ainda assim a separação do estado e da religião deveria prevalecer. Até porque, num país onde quase a totalidade é católica, certamente um consenso a favor da construção de imagens de santos atropelaria a voz das minorias sem que isso fosse visível na apuração de uma votação ou em uma análise estatística.

Antes de qualquer coisa, precisamos conhecer o deputado católico e defensor da moral e dos bons costumes que pretende gastar o dinheiro para cristianizar a cidade. Segunda ONG Transparência Brasil, Pedro Augusto (PMDB) declarava ter em 1996 um Vectra e cotas numa agência de publicidade. Na declaração seguinte, ele adquiriu um Chrysler 300M, uma Saveiro, um caminhão e um aumento de R$ 20 mil nas cotas da empresa. Seu patrimônio sobe de R$ 44 mil para R$ 169 mil (285%). Uma das bandeiras de Pedro Augusto, conforme ele diz no site da ALERJ, é justamente a construção de um monumento a Nossa Senhora Aparecida. Em geral, políticos se elegem quando prometem educação, habitação, hospitais, etc. Neste caso, o povo decidiu eleger alguém que construiria algo que todos precisam mais do que tudo: a imagem de uma santa! Quem sabe se ela verter mel, óleo ou perfume, vire um ponto turístico?

Em minha humilde visão das reais necessidades do povo, sugiro algo diferente. Pegue estes milhões e invista num centro tecnológico. Em alguns anos, lucraremos os dividendos positivos de pesquisas e desenvolvimento. Ou podemos pegar estes milhões e construir realmente uma enorme estátua de bronze, para que os fiéis tenham (mais um?) lugar para rezar, pagar penitências dolorosas e juntar aquele monte de mendigos procurando um bom cristão pronto para fazer uma boa ação. Fico pensando, aliás, como seria um sem-teto visitando a estátua sabendo que uma fração dela seria suficiente para construir uma confortável casa num conjunto habitacional. Será que ele perceberia a situação humilhante, quase punitiva, a que ele foi submetido? Talvez não. Resta a nós, esclarecidos, lutar contra a insensatez dos políticos que um povo ignorante coloca no poder. Até porque, também é nosso dinheiro. Eu prefiro usá-lo em uma instituição de ensino, e você?