Contra as cotas raciais, mas a favor das cotas sociais

13/03/2010

Filhos de pai negro e de mãe branca, os irmãos gêmeos univitelinos (idênticos) Alex e Alan Teixeira da Cunha, de 18 anos, não tiveram a mesma sorte ao se inscrever no sistema de cotas para o vestibular do meio do ano da Universidade de Brasília (UnB): Alan foi aceito pelos critérios da universidade e Alex não. (Fonte: G1)

Eis o absurdo que uma lei baseada em raça é capaz de gerar. Quais os critérios para definir a raça de alguém? Cabelo e pele? Tipo de nariz? Estrutura do crânio? A definição de negro está sujeita à subjetividade e, portanto, não serve e nem é justa para classificar as pessoas. Temos, contudo, um elemento com o qual podemos fazer uma análise exata da situação de uma pessoa e que traria, verdadeiramente, a justiça ao país: a condição econômica.

A sua definição de negro pode diferir da minha. Mas se pegarmos um pai ou mãe de família que ganha apenas um salário mínimo, podemos classificar com exatidão matemática que aquela pessoa é pobre e, com a mesma certeza, concluir que esta pessoa não tem acesso a serviços básicos de qualidade (não em um país deficiente como o Brasil). Eis o tipo de pessoa que merece uma chance de conseguir um emprego melhor para conseguir uma vida mais confortável. E isso só se consegue com trabalho qualificado, ou seja, com educação de qualidade.

Uma pessoa não escolha nascer rica ou pobre. Não obstante, como em todo país de primeiro mundo, que entende que a diminuição de diferenças sociais traz benefícios à todos, seria justo aumentar (e não simplesmente “dar”) as chances de que pessoas pobres tenham acesso à serviços de qualidade (ensino, saúde, habitação, etc). Enquanto isso é uma injustiça do ponto de vista prático (não tenho culpa de que o outro seja pobre), ainda assim é uma grande justiça do lado humano (pobres não tem condições de terem as mesmas chances do que eu. Ao invés de mantê-los para sempre nesta situação de exclusão, vamos aumentar as chances de que eles melhorem de vida). No caso de facilitar o acesso dos mais pobres a faculdades com cotas exclusivas, os ricos continuarão ricos (pois têm muitas possibilidades) e os pobres ganham a chance de enriquecer. É uma espécie de socialismo dentro do capitalismo. A diferença é que não estamos buscando a completa igualdade, o que é uma utopia, e sim diminuir o abismo entre as classes sociais (mas nunca raças!).

O empresário negro Marcos Moreira, da MM Services, disse que sua cor não dificultou chegar onde chegou e diz, ainda, justamente que o problema do preconceito é econômico, não étnico, como querem fazer parecer:

“Infelizmente, não conheço muitos executivos negros no mercado brasileiro e olha que vivo no meio deles. Acho que o maior racismo que existe no Brasil não é racial, é social. Aqui brancos e negros convivem bem se estão na mesma posição social. O racismo não acontece comigo, que tenho dinheiro, bons carros e um bom apartamento. O difícil é ser negro e pobre. Sinto que a discriminação é mais econômica e divide a sociedade nos que têm dinheiro e nos que não têm. A cor vem em segundo plano.”

Então, até podemos segregar cada vez mais a sociedade entre raças, mas aí veremos brancos abastados jogando moedas para os pedintes negros, no norte do país, assim como veremos negros endinheirados dando uns trocados para os mendigos no sul. Seremos barrados em faculdades, empresas e demais estabelecimentos para que analisem nossa cor de pele para saberem como deverão nos tratar. Ah claro, e também para analisar nossa opção sexual, já que isso parece também nos tornar outra espécie que não a Homo-Sapiens. Quanto mais fizermos distinção, mesmo que com boas intenções, que beneficiem uma raça em detrimento da outra, mais racismo haverá. Pior, o racismo um dia sumirá do campo moral e passará a vigorar apenas no campo legislativo. E os que um dia foram discriminados gozarão de mais benefícios do que os acusados de discriminação. Só que um dia esta condição satura, o mundo gira e a situação se inverte. E no futuro, precisaremos de políticas afirmativas para os brancos, excluídos ou menosprezados pelas leis e, quem sabe, pela sociedade. A nossa lei máxima, em seu artigo nº 5, é sábia: só teremos um país igual se todos forem tratados como iguais perante a lei. Então, que assim seja.