Família perfeita para o redator do Editorial da Jovem Pan
Recentemente, a Jovem Pan fez um editorial criticando as telenovelas brasileiras. O conteúdo, a meu ver, foi mal redigido, é de uma precariedade de fundamentação e peca por um puritanismo escancarado (ao menos num trecho). Já li coisas melhores em blogs anônimos que, naturalmente, não ganharam a devida atenção e credibilidade por tecerem críticas mais embasadas e realistas. Concordo com um ponto do texto, apenas: aquele onde se critica que as novelas mostram a infidelidade como algo corriqueiro, natural e encorajado.
O editorial completo pode ser lido neste link. Abaixo farei algumas ponderações que não tem nada de profundas ou complexas. São daquelas obviedades que saltam à cara. Vejamos.
“A liberdade de expressão passa por desvios escabrosos no mundo moderno. Enquanto em países como a Venezuela se lacram canais de televisão, aqui entre nós a disputa de audiência coloca no ar uma libertinagem que agride a família brasileira.”
Bom, os canais na Venezuela não foram fechados em nome da moral e dos bons costumes, como o editorial dá a entender. Lá, uma nova norma recém-aprovada prevê que canais de televisão cuja produção seja majoritariamente de conteúdo nacional devem responder à Lei de Responsabilidade Social em Rádio e TV, que regulamenta as atividades do setor no país. A RCTV e outras emissoras não cumpriram o papel e não puderam renovar o contrato de transmissão.
“A devassidão está escancarada nas novelas, que são apresentadas em horário nobre e penetram nos lares para espanto de pais, esposas e crianças, em todo o país. E nelas, o que se vê? Famílias desconstituídas e a banalidade dos encontros fortuitos, as traições como hábito comum dos casais. A fidelidade morreu.”
Aqui a crítica procede. Realmente, as novelas mostram uma vida fútil, vazia, cheia de intrigas, traições e brigas. A fidelidade, então, parece algo abominável. Traição e troca de cônjuges acontece com uma frequência e naturalidade que podem servir de mal exemplo. Ainda assim, tanto quanto jogos de vídeo-game violentos não tornam ninguém um serial-killer, não podemos dizer que os telespectadores tornar-se-ão infiéis por excelência.
“A mulher se transformou em objeto. Aqui, em cena de café da manhã, a filha sai do quarto com o namorado e se assenta à mesa, na mais absoluta naturalidade.”
Hum... e daí? Em que século o cara que escreveu isso vive? Século passado, onde mulher exemplar só servia para ter filhos e cuidar da casa, enquanto o homem frequentava puteiros e angariava amantes para extravasar seus desejos sexuais? Ora, é justamente NESTE cenário que a mulher é um objeto. Um objeto que é humilhado publicamente por maridos que diziam abertamente sobre sua agitada vida sexual... fora de casa, naturalmente. Então, o ancião redator do editorial erra, engana, deturpa e mostra um atavismo que já devia há muito ter morrido. Uma época vergonhosa que já foi superada. E claro, a filha sai do quarto com o namorado e vai tomar o café da manhã... onde está a “devassidão”, a imoralidade, a afronta aos bons costumes? Quer dizer que se ela estivesse casada, tudo bem. Agora, como é namorada, então, temos uma atitude condenável. Além de velho, o editor deve ainda ser daqueles religiosos hipócritas que devem achar que mulher tem que se casar virgem.
“A rigor, todos os personagens são levianos, ninguém trabalha, e é isso que destoa da realidade brasileira. O Brasil não é isso. Essa não é a verdade do nosso povo e da nossa civilização. Nisso, a novela presta um desserviço à nacionalidade, até porque, sendo bem feita como é, a peça vai correr mundo e mostrar uma imagem deformada da mulher brasileira que, na verdade, é uma trabalhadora voraz, competente, dedicada, que cresce a olhos vistos no campo da produção e, à noite, volta para casa, para conduzir com dignidade o lar, que é seu esteio e seu templo de repouso.”
Que bonitinho. Aqui é aquela parte que o editor tenta trazer para o seu lado o apoio das mulheres que se identificam com o estereótipo virtuoso apresentado. Mas o infeliz deixa escapar seu machismo, quando diz que a mulher volta à noite para conduzir o lar. Uai. E o homem da casa? Conduz o que? Já sei... ele também é conduzido com “dignidade” pela brava mulher brasileira, que passará a roupa dele, fará a comida dele e ainda trará uma cerveja no sofá quando começar o jogo de futebol na TV. Este é o “templo de repouso” da dedicada mulher brasileira que o arcaico editor da Jovem Pan quer ver.
Perfeito o Editorial... para nossos tataravôs.
