E com barro em seus olhos, o cego voltou a enxergar

22/12/2009

1 Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. 2 Os discípulos perguntaram: «Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou seus pais?» 3 Jesus respondeu: «Não foi ele que pecou, nem seus pais, mas ele é cego para que nele se manifestem as obras de Deus. 4 Nós temos que realizar as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Está chegando a noite, e ninguém poderá trabalhar. 5 Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo.» 6 Dizendo isso, Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva e com o barro ungiu os olhos do cego. 7 E disse: «Vá se lavar na piscina de Siloé.» O cego foi, lavou-se, e voltou enxergando. (João 9, 1-7)

Quando uma pessoa, por mais crente que seja, perde parcial ou totalmente sua visão, recorre aos médicos na tentativa de recuperar a capacidade de enxergar. Os milagres de antes não ocorrem mais. Não se recorrem à padres, bispos ou pastores. Em um estranho momento de sobriedade e lucidez, crentes de todos os níveis recorrem à ciência para aplacar suas enfermidades. Uma triste demonstração de pouca fé.

Pois bem. Um homem que ficou parcialmente cego após intervir em uma briga teve sua visão restaurada por uma nova terapia com células-tronco. Em testes iniciais realizados com oito pacientes com cegueira parcial, todos relataram melhora da visão e redução da dor nos olhos.

É o homem descobrindo o “barro de Jesus” para curar os cegos. Não me entendam mal. A supracitada história retirada da mitologia cristã não é uma “premonição” dos dias atuais. Aquela ainda reside na esfera do imaginário, lendário. O que friso aqui é o avanço da ciência, eternamente inconformada com as dificuldades do homem e disposta a ajudá-los. Em troca de dinheiro? Em troca de reputação? Talvez. Mas, supondo que sim, o que estaria o cientista, então, fazendo diferente de um clérigo qualquer?

Certamente, ainda veremos muitos casos de pessoas que passam meses fazendo quimioterapia e, sempre que estavam desacreditadas pelos médicos, foram curadas após uma bênção de algum intercessor divino. E os medicamentos? Vocês acham que foram parar onde? Na urina e dali para a privada, sem surtir efeito algum? Ou ainda os casos de “curas espontâneas” de doenças que, bem se sabe, são resolvidas assim mesmo, tão logo o corpo consiga reagir.

Infelizmente a crendice ainda tem terreno fértil e veremos muitas pessoas recorrendo ao homem e sua frágil e incipiente ciência para aplacar seu sofrimento. E após muito investimento em estudos e trabalhos de homens aplicados e dedicados, esses ex-enfermos irão, num gesto extremamente desrespeitoso como quem entrega o prêmio ao segundo colocado, levantar suas mãos aos céus e agradecer ao seu deus, qualquer que seja, pela cura alcançada. Mas os homens da ciência não se incomodarão com tamanha desconsideração e seguirão suas vidas de pesquisas para que mais e mais pessoas possam usufruir dos “verdadeiros” milagres que podem ser operados na Terra.