O agnosticismo granular de Richard Dawkins

28/12/2009

Teísta Convicto

Teísta de Fato

Agnóstico com
tendência Teísta

Agnóstico Imparcial

Agnóstico com
tendência Ateísta

Ateísta de Fato

Ateísta Convicto

100% de chance de existência.

Alta chance de existência, mas não total.

Mais de 50% de chance de Deus existir, mas não muito alta.

50% de Probabilidade de Deus existir.

Mais de 50% de chance de Deus não existir, mas não muito alta.

Alta chance de inexistência, mas não total.

100% de chance de inexistência.

Enquanto leio o livro de Richard Dawkins, “Deus – Um Delírio”, me deparei com sua crítica ao agnosticismo. Ao meu ver, a crítica tem um tom pessoal. Além disso, não sou um filósofo ou exímio analista para encontrar os pontos falhos, fracas ponderações e premissas que Dawkins parece usar. De qualquer maneira, mesmo um filósofo disposto a refutar a retórica de Dawkins concordaria que, para os fins almejados pelo autor, a tabela (acima) de níveis de crença e descrença serve bem.

A ideia central de Dawkins é que um agnóstico deveria se definir melhor. A fé no sentido estritamente religioso é a crença em algo sem as necessárias evidências para confirmar o que, a priori, é apenas uma crença. Mas podemos buscar por evidência que façam nossas crenças caminhar para um lado ou outro da tabela. Vou dar um exemplo:

João é um agnóstico imparcial. Seu filho pegou uma grave doença mas, sem recursos, tudo o que restou à ele e sua família foi rezar pela recuperação do mesmo, enquanto João segue por fora das preces apenas torcendo pela recuperação. Em um determinado momento, seu filho entra em coma e a morte parece inevitável. Um médico amigo da família se sensibiliza com o caso e compra o remédio. Após administrar o remédio em pouco tempo, o filho acorda, melhora e se cura. João está certo que algum deus colocou o médico em contato com a família, talvez atendendo às preces dos demais parentes que rezaram tanto. Ele se inclina mais para o teísmo, para a crença.

Maria é uma agnóstica imparcial. Seu filho pegou uma grave doença mas, sem recursos, tudo o que restou à sua família foi rezar pela recuperação do mesmo, enquanto Maria segue por fora das preces apenas torcendo pela recuperação. Em um determinado momento, seu filho entra em coma e a morte parece inevitável. Um médico amigo da família se sensibiliza com o caso e compra o remédio. Após administrar o remédio, em pouco tempo o filho acorda, melhora e se cura. Maria vê que as orações e preces que os familiares fizeram não adiantaram, mas sim o remédio. Ela se inclina mais ao ateísmo, para a descrença.

Duas histórias idênticas com interpretações diametralmente opostas. Ainda assim, João e Maria saíram daquele ponto de total indefinição. O agnóstico de Dawkins é um preguiçoso ou intelectualmente covarde, incapaz de admitir ou perceber de qual lado está. Por definição, podemos dizer que apenas os extremos da tabela são realmente crentes. Um ateu que é 100% convicto na inexistência de algum deus só pode fazê-lo mediante algum tipo de fé às avessas, ou seja, se crê numa inexistência. Da mesma forma, um teísta 100% convicto só pode sê-lo por , pois não pode provar sua crença.

Todo os demais níveis da tabela são “agnósticos em maior ou menor grau”. A definição de Dawkins para estes agnósticos me parece mais precisa do que simplesmente definir alguém como agnóstico. Qualquer um que dê margem à possibilidade da existência ou não de um deus, está colocando o elemento da incerteza, ou seja, admitindo a possibilidade de não se ter a gnose (conhecimento) total da coisa, classificando em algum grau de agnosticismo, seguindo a própria definição de Thomas H. Huxley.

Agora, convém afirmar que um “agnóstico” que encontra mais evidências da inexistência (a Maria da nossa história) de um deus deve se afirmar como ateu (meu caso). Ao passo que um “agnóstico” que encontra mais evidências da existência (o João da nossa história) deve se classificar como teísta. O problema é o agnóstico imparcial que bate no peito e julga ser esta a posição mais intelectualmente apropriada para lidar com o tema. Ora, um agnóstico que realmente não se dá ao trabalho de se definir como mais místico ou materialista é alguém que, na verdade, não se conhece o suficiente, ou não conhece suficiente o mundo que o rodeia para tentar extrair uma posição.

O que uma pessoa ganha falando se é ateu ou crente, eliminando o agnosticismo como possibilidade? Bom, se um agnóstico se prestar a descobrir se ele é mais crente ou mais ateu, teremos uma produção saudável de conhecimento que nos faz andar mais para uma direção ou outra. Assim ele ficará ou de um lado ou de outro do debate metafísico e isso ajudará no equilíbrio da coisa, limitando os excessos de cada lado. Pessoalmente, não gosto de quem não se posiciona. Dizer “sei lá” é cômodo demais para mim. Eu quero os porquês, quero as contradições, quero as certezas infalíveis e as falíveis, quero a virada de mesa, quero ver quem quebra a cara de quem (no âmbito das ideias, sempre). Enfim, tanto quanto Dawkins, me incomoda quem não se define. Pois quem não se define não “é” e não pode interferir em nada. Precisamos de toda ajuda que pudermos para resolver as grandes questões. De onde viemos, o que somos e para que estamos aqui. O agnóstico só nos provê o “sei lá”. O teísta tem a explicação metafísica e os ateus a explicação materialista. A verdade pode estar num dos extremos ou mesmo no meio. Mas nunca no “sei lá”.