(Conheçam a face da ameaça. Seu nome, Zined el Rhazaoui. Sua periculosidade é o fato de representar novos tempos, mudanças - e como os homens temem as mudanças. Seu crime: comer um sanduíche)
A jornalista Zineb el Rhazaoui, de 28 anos, não teve tempo sequer de colocar na boca o sanduíche com que pretendia romper em público, junto com um punhado de seguidores, o jejum do Ramadã no Marrocos. No entanto, El Rhazaoui e outros cinco jovens marroquinos serão julgados por descumprir essa abstinência sagrada para os muçulmanos. A inobservância do jejum acarreta em uma pena de um a seis meses de prisão, além de uma multa simbólica.
Alguns me perguntam: por que combater a religião? Qual o problema se alguém acredita em algum deus? Há muitas razões, inclusive um incômodo pessoal de ver uma massa alucinada e ingênua doando tempo, dinheiro e trabalho por razões, no mínimo, duvidáveis. Mas há uma razão bem mais prática e impessoal para tanto: a ameaça à laicidade do Estado, ou seja, leis e instituições isentas capazes de assegurar a liberdade individual e um convívio pacífico e respeitoso entre estes indivíduos.
Vejamos o pecado dos jovens marroquinos. Eles tentaram fugir para uma estação de trem para simplesmente... comer! Lá na estação de trem, além de vários policiais, também estavam alguns islâmicos que desejavam agredir os "pecadores". Ora! Lembro bem de não poder comer carne próximo a um feriado cristão. Não que eu não quisesse, mas não podia porque meu pai assim impôs a toda família. Imagino isso subindo da esfera familiar para a vizinhança, comunidade e, enfim, para a cidade toda ou mesmo o país. Não posso comer carne na minha própria casa porque um bando de crentes julga isso desrespeitoso? Absurdo, eu sei. Mas é esse o risco que corremos.
Mesmo alguns países avançados cultural e socialmente, ainda mantêm resquícios do poder eclesiástico sobre o governo. Na Alemanha, os fiéis pagam um imposto religioso, recolhido pelo governo e repassado às igrejas. Quem quiser suspender a contribuição – que representa 10% do que é pago em imposto territorial e de renda para o Estado – deixa oficialmente de ser membro da Igreja. O "imposto de igreja", criado no século XIX, foi incorporado à Constituição da Alemanha depois da II Guerra.
Recentemente, o Brasil aprovou uma lei de privilégios à Igreja Católica Romana, feito na calada da noite, longe de holofotes e do conhecimento popular. Mais espertos do que religiosos, os clérigos católicos se encarregaram de usar da desculpa de ser um país (menor que muitas mansões, mas tudo bem) para pregar direitos maiores do que as demais religiões. Nas palavras da embaixadora Vera Machado, o Vaticano pode e as demais religiões não.
No Brasil temos uma bancada, felizmente menor do que antes, de 30 deputados evangélicos. Aqueles mesmo que lutam no STF para terem o direito de discriminar homossexuais enquanto fazem caminhadas “bonitas e pacíficas” para pedir o fim da intolerância religiosa.
O problema das igrejas é que elas crescem. Cortar sua fonte vital, os crentes, é o melhor meio para conter este avanço ensandecido de clérigos sedentos por poder. E o jeito mais respeitoso para fazê-lo é mostrar a quem quiser ver, as atrocidades, hipocrisias, contradições e atraso que as religiões representam. Talvez mostrando às pessoas mais fracas, incapazes de continuaram vivendo sem a crença num “pós-morte” ou de um “pai-celestial” (pai? E ainda acham que religião não é machista? Enfim...), que elas não precisam se sacrificar por instituições que tornam o processo de crença algo mais burocrático do que espiritual. O combate ao pensamento religioso (não ao pensamento espiritual) é para garantir um mundo justo, igualitário e fraternal.
