Cerca de 80 mil se manifestam contra a intolerância religiosa no Rio de Janeiro. O movimento foi criado em 2008 quando uma série de atentados e decisões judiciais foram atribuídas ao preconceito religioso. Felizmente, não é por causa dos ateus que a marcha foi realizada. Em verdade, estamos preocupados com outras coisas, como ver TV, sair com os amigos, com namorada, etc. O problema é dos religiosos contra os religiosos. E por que, hein?
Generalizando, toda religião é intrinsecamente xenófoba e preconceituosa. As duas maiores do mundo (cristã e islâmica) derivam de uma mesma fábula homofóbica, machista e sangrenta, cheia de contradições, dubiedades e aberta à infinitas interpretações. E são essas interpretações que dão margem às milhares de denominações cristãs, por exemplo. Para se ter idéia, David B. Berret, Todd Johnson, e Peter Crossing publicaram no International Bulletin of Missionary Research, que existem cerca de 39000 (trinta e nove mil!) denominações cristãs. Muitas partilham as mesmas idéias e convicções. Mas neste mundo segmentado, é de se esperar que diferentes grupos tenham interpretações diferentes e mesmo antagônicas entre si.
O pior de tudo é que a intolerância, no caso da religião, se origina de uma fonte legítima: a fé. Ou seja, eu acredito que podemos chutar imagens de adoração, porque minha interpretação das escrituras diz que o culto à imagem é herético. Sérgio Von Helder, o pastor da Igreja Universal que em 1995 chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida (e que NÃO se converteu coisa nenhuma ao catolicismo) foi processado. Ué? E a tolerância para com a interpretação, crenças e fé do referido pastor?
Em outro episódio, o pastor Tupirani da Hora Lores (que foi preso e sua prisão comemorada pelos organizados da marcha pela “tolerância”), líder da Igreja Geração de Jesus Cristo, no Morro do Pinto, aprovou a idéia de Afonso Henrique Alves Lobato, um dos seus seguidores, que postou na internet um vídeo ofensivo contra as religiões afros, os pais-de-santo e a polícia. Ora, eu nem preciso ler a bíblia profundamente para lembrar que o piedoso e generoso deus abraâmico é radicalmente contra a adoração de outros deuses. Logo, na verdade, o pastor está correto em sua interpretação. O jovem fez aquilo que ele acredita ser o correto (na verdade, segundo a bíblia, está mesmo).
Em 2008, um clérigo armênio afirmou que os monges gregos tentaram colocar um de seus monges dentro da Edícula, uma estrutura antiga que encerraria a tumba de Jesus dentro da Basílica do Santo Sepulcro, local onde, segundo a tradição cristã, Jesus Cristo foi crucificado e sepultado. Resultado? Uma pancadaria com direito a chutes, socos e sangue escorrendo pelas caras, que só foi contida pela polícia israelense. Onde reside a tolerância?
Correntes rivais, mulçumanos xiitas e sunitas se matam e se ofendem apenas porque não concordam sobre quem devia ter sucedido Maomé na ocasião da morte (desculpe, da ascensão aos céus) do profeta.
Como se vê, a religião não vem aqui para unir. Ela está aqui para separar, segregar, conquistar e eliminar denominações diferentes. Não porque assim mandam as sagradas escrituras. Mas porque o homem, sedento de poder de qualquer espécie, se vê na ânsia de dominar os diferentes e os mais fracos. A marcha celebra a danosa contradição imperceptível aos olhos dos ignorantes religiosos, mas clara como o sol para aqueles que não precisam dela para se religar, verdadeiramente, com um deus qualquer (não que existe algum, mas enfim). A espiritualidade é bonita, admito. A religião é peçonhenta, mesquinha, atrasada, retrógrada, preconceituosa, ludibriante. Enfim, as religiões são tudo aquilo que suas escrituras pregam como errado.
