Mês passado, saiu uma notícia informando que os jovens sul-americanos são mais escolarizados e menos religiosos que seus pais (no Brasil, 14% dos jovens declaram não ter religião, contra 7% dos adultos), mas mantiveram as mesmas posições sobre temas morais e éticos polêmicos, segundo aponta um estudo feito em seis países da região. A pesquisa foi coordenada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicos (Ibase).
O sociólogo Phil Zuckerman chegou à mesma conclusão após 14 meses na Escandinávia, conversando com centenas de dinamarqueses e suecos sobre religião. Qualquer um que tenha observado um pouco mais sabe que a Dinamarca e a Suécia estão entre os países menos religiosos do mundo. Ambos dividem o primeiro lugar nas listas dos países com melhor expectativa de vida, bem-estar infantil, escolaridade, igualdade econômica, qualidade de vida e competitividade. Apesar de bem documentados, estes dois conjuntos de fatos vão contra à crença de muitos americanos (e religiosos em geral) de que uma sociedade sem muita religião seria, nas palavras de Zuckerman, "de uma imoralidade feroz, repleta de mal e extremamente corrompida".
O sociólogo concluiu que, nestes países, a "religião não era na verdade um assunto tão privado, pessoal, mas, sobretudo, não se tratava de um assunto". Seus entrevistados simplesmente não se preocupavam com isso. Zuckerman enfatiza que seus entrevistados não eram de forma alguma niilistas desesperados, mas "em sua maioria, pessoas felizes e satisfeitas" que "em geral têm vidas produtivas, criativas e contentes”. A religião passou a ser algo algo meramente “cultural”. Basicamente, ela se incorporou no dia-a-dia das pessoas na forma de conceitos de bondade e moral (que já sabemos ser bons sem precisar a recorrer a nenhuma religião).
Em certo ponto, Zuckerman pergunta a Jens, um ateu de 68 anos, sobre as fontes da cultura extremamente ética da Dinamarca. Jens responde: "Somos luteranos em nossas almas - eu sou um ateu, mas ainda tenho as percepções luteranas de muitos: de ajudar nosso semelhante. Sim. É uma idéia moral velha e boa." Mas afinal, como é possível ser ateu e usar de moral religiosa?
Não precisamos da religião para viver, mas sim de conceitos de convivência pacífica e harmônica em sociedade (conceitos que, aliás, já estão bem definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos). Conceitos esses que também são disseminados pelas religiões, mas não são exclusivos destas. Culpar a falta de religiosidade pelos males do mundo é um contra-senso descabido. Como assim eu só sou bom se tiver uma religião? Quer dizer que só sou bom se temer uma punição e aguardar uma recompensa pós-morte? Isso é patético e só mostra a infantilidade intelectual de muitos religiosos.
Vale frisar ainda a relação escolaridade x religiosidade. Embora muitos cientistas sejam teístas, esta relação é muito diferente entre o povo em geral e a elite intelectualizada. Pesquisas apontam que 90% da população em geral dos EUA acreditam em um deus. Na Academia de Ciências dos EUA, 93% não acreditam em deuses: são ateus. Isso aponta numa única direção: a noção de que deus é um argumento desnecessário para explicar boa parte da vida, sua origem, mecânica e o próprio sentido (que, segundo Dawkins, seria apenas a perpetuação dos genes ad infinitum).
Quando se estuda e se entende, por A mais B, o funcionamento das coisas, as explicações mitológicas e religiosas perdem espaço para as provas e teorias (que são testáveis, falseáveis, replicáveis, etc) que a ciência provê. A própria teoria da Evolução é um exemplo típico. Não precisamos mais de deus algum para entender o processo evolutivo. E podemos usar este conhecimento a nosso favor no desenvolvimento de vacinas, controle de pragas, etc. E não importa se você acredita na teoria da evolução. Tanto quanto a lei de gravidade, ela existe independentemente da sua convicção. Jogue-se de uma ponte e você será atraído para o centro da Terra. Observe espécies ao longo de gerações e verá a evolução ocorrendo, por mais que você não “acredite” nela.
Mas o espaço da religião está garantido. Enquanto houver pessoas incapazes de encontrar um sentido da vida, incapazes de conviver em sociedade sem a noção de que estão sendo observadas e sob pena de punição caso façam algo errado, incapazes de aproveitar a esta vida se ela não tiver uma “continuação”, enfim, enquanto o mundo estiver recheado de pessoas espiritualmente fracas, teremos religiosos, fundamentalistas, missionários, etc. E o mundo sofrerá o despotismo e autoritarismo, além do abuso físico, mental, espiritual e financeiro, típico daqueles que sempre usaram e usarão a religião como instrumento de manipulação social: os altos sacerdotes.
