Violência policial e humilhação na favela de Paraisópolis

03/06/2009
Favela do Paraisópolis, Morumbi - São Paulo Favela do Paraisópolis, Morumbi - São Paulo
Favela do Paraisópolis, Morumbi - São Paulo Favela do Paraisópolis, Morumbi - São Paulo

Os números oficiais da Operação Saturação da Polícia Militar em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, são chocantes. De acordo com a Prefeitura, moram 60 mil pessoas no bairro. Durante pouco menos de três meses de operação, entre 4 de fevereiro e 26 de abril, 400 policiais em 100 viaturas e um helicóptero, com 20 cavalos e 4 cachorros, aplicaram 51.994 revistas a moradores do bairro.

De acordo com a polícia, no balanço da operação constaram 93 flagrantes, captura de 61 procurados, 31 armas e 9,9 kg de cocaína apreendidos. Mas o saldo final vai além: sobrou raiva, humilhação, revolta, indignação que ninguém ainda é capaz de dizer o que isso de fato pode significar para a cidade. Seguem alguns relatos da operação policial:

Auxiliar administrativa em uma empresa de telefonia, Gisele Cristina dos Santos, de 28 anos, teve o barraco invadido seis vezes pela polícia. Em nenhuma delas havia autorização judicial. Na primeira, um domingo de manhã, ela, marido e seis filhos, crianças de 1 a 12 anos, estavam em casa. O marido esticava um novo varal e chamou a atenção dos policiais por causa de uma tatuagem. Perguntaram se ele tinha "passagem". Ele informou que estava sob condicional, mas não devia na Justiça. Os policiais chutaram o portão e invadiram o quintal perguntando por drogas. Em seguida, entraram na casa e rasgaram o sofá. O pai apanhou na frente dos filhos.

Quando viu o movimento de policiais na viela em que mora, Antonio, de 13 anos, entrou em casa correndo. Os policiais o seguiram. Dentro de casa, Antonio teve a arma apontada para cabeça. "Por que estava correndo? Onde é a boca?", perguntava um deles, enquanto o estapeava. Outro policial revistava a casa. Antônio, que aparenta 10 anos, estava sozinho com o irmão, de 9. Os dois choravam muito. "Cala a boca vacilão. Vamos levar você para um quartinho escuro na Febem", ameaçava o policial.

Sílvio de Moraes Pereira, de 21 anos, quer ser tatuador. Tem piercings, sobrancelhas cortadas e tatuagens. Fez estágio na Galeria do Rock. Andava pela viela às 8 horas da manhã quando foi abordado e obrigado a tirar a roupa e ficar de cueca. Sentou em cima da mão e o acusaram de trabalhar no tráfico. Ele negou a ligação. Os seis homens perguntaram se ele teria coragem de levá-los à sua casa. Pereira topou. Jogaram o jovem em cima da cama e ele apanhou em rodízio: um dava socos na cara, outros nos rins e todos chutaram ao mesmo tempo com coturnos de bico de ferro, quando ele caiu no chão. Com medo de novas represálias, acabou se mudando.

Eis a polícia do "excelentíssimo" governador José Serra (e o sanguinário ainda está à frente da corrida presidencial!). Olhem as fotos. Não há símbolo melhor para exprimir a desigualdade social. Não há meios melhores de explicar a causa da violência do que estas fotos. O que você acha que pensam os moradores daqueles luxuosos prédios? Vamos votar no homem que coloca a polícia em cima daqueles “animais lá de baixo”. Eis a fórmula para a perpetuação da violência.

Repressão não funciona para sempre. Não adiantou NADA, absolutamente NADA as operações policiais. Tudo o que foi apreendido já foi recuperado por bandidos. Mas é esse show, esta humilhação, este teatro do “bem derrotando o mal” é o que agrada aos moradores milionários. A polícia sai, mas e o social? E as escolas que são necessárias? Postos de saúde? Áreas de lazer? Nada. Não é isso que os loiros e madames “à lá Daslu” querem ver. Eles querem ver aquele negrinho sendo algemado. Querem ver policial cinematográfico, arrombando porta de barraco, gritando e aterrorizando. É como uma vingança da elite contra os marginais. Marginais? Quem está à margem da sociedade aqui é a elite. Este menos de 1% de brasileiros vivem num outro Brasil. Os brasileiros mesmo estão numa outra realidade, muito mais dura e sofrida.

Mas votemos no José Serra e sua corja direitista repressora. Vamos tirar ainda mais dos pobres para dar aos ricos, segregar ainda mais o que já estão segregados, e torcer para que isso aqui não exploda.