quarta-feira, 22 de abril de 2009

Eu não costumo ficar lendo poesias, contos, nem prosas. São textos muito personalizados e nem sempre batem com minhas idéias, opiniões, ideologias, sentimentos. Claro que isto é natural, visto a infinidade de variações de personalidades neste mundo. Mas alguns textos, creio eu, merecem ser lidos, pois, transcendem o caráter pessoal com que os autores costumam redigir suas idéias. O texto abaixo é um pouco longo, eu sei. Foi escrito há mais de 30 anos, mas é atual e até futurista. Vale a pena ser lido.

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)

Marina Colasanti
nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

3 comentários:

Daniella disse...

Bom, esse é a rotina de ALGUMAS pessoas, não podemos generalizar isso.
E quem gosta de seu trabalho ou obrigaçoes?! Não foram citados?!
E quem faz as coisas com prazer?!
Essa pessoa quem escreveu o texto deve estar falando de sua vida, pois não é todo mundo que se acostuma com essas coisas, eu por exemplo, sei que ao meu redor há prédios, mas não é por isso que eu deixo de olhar para fora da janela, pois posso ver os carros, a piscina, o sol, as estrelas e até o luar.E tb escuto passarinhos cantando e os vejo voando.
E, tem outra, nesse texto há o Arcadismo que é, as pessoas reclamam mtu da cidade, idealizando a vida no campo, colher a fruta do pé, acordar com o barulho do galo e ouvir aos passarinhos, mas é engraçado pois dificilmente alguém se muda para lá, não é?!
Portanto, podemos concluir que muitos reclamam de barriga cheia, e é engraçado que qse ngm se muda para o campo!!!

TG disse...

Daniella, a proposta do texto não é generalizar os costumes citados a todos, mas sim fazer VOCÊ (e qualquer um que ler o texto) pensar nos seus próprios costumes, no seu cotidiano, na sua ROTINA. E enxergar os costumes mesquinhos que todos nós temos em nossas vidas.

Rodrigo disse...

Então isso tem um nome: Arcadismo
Tenho um certo repudio a esse comportamento de estou insatisfeito aqui, era tão bom lá da onde eu venho.

Ora bolas volte para lá : )

adicionando conhecimento. bom.