Igreja tenta interromper o aborto em uma criança de 9 anos estuprada

04/03/2009
(Desde que observadas as devidas regras, o aborto deveria ser legalizado. Em Portugal, por exemplo, ele é permitido: até às 24 semanas em caso de malformação do feto; até às 16 semanas em caso de violação ou crime sexual; em qualquer momento em caso de risco para a grávida ou no caso de fetos inviáveis. Leis claras e população consciente são uma evolução, em contraposição ao retrocesso que a Igreja insiste em difundir)

A gravidez da menina de 9 anos, que teria sido abusada pelo padrasto, foi interrompida na manhã desta quarta-feira (04/03/09). O procedimento foi realizado com autorização da mãe e consentimento da menina, seguindo protocolo recomendado pelo Ministério da Saúde em casos de gravidez de risco ou decorrente de violência sexual. "Nós entendemos que a menina se encaixava em ambos os casos", disse o médico. Para o procedimento, os médicos usaram um medicamento que provoca contrações do útero, induzindo a expulsão do feto.

Nada mais correto, um leitor sensato irá dizer. Mas, acreditem, o arcebispo de Olinda e do Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, quis evitar o aborto. E para tal, conversou com a família e depois pediu ao advogado da Arquidiocese de Olinda e Recife, Márcio Miranda, denunciar o caso ao Ministério Público de Pernambuco. Felizmente, a mãe não queria ser avó da filha do próprio marido e, entendendo ainda o risco da gravidez, defendeu e conseguiu o aborto.

O arcebispo errou? Enquanto religioso, de maneira alguma. Ele agiu dentro dos dogmas e crenças pessoais. Mas façamos uma pergunta interessante: se a minha religião fosse outra (deixe-me escolher... por exemplo, se eu acreditasse nos deuses gregos), ou se simplesmente não acreditasse neste imbróglio religioso, eu teria que me submeter à vontade ou coerção alheia? Quem está certo? Eu, enquanto requerente do aborto, posso provar o risco à saúde e a origem condenável do filho. E o religioso? Pode provar que o deus dele existe e que este deus também e meu deus e que ele não permite aborto? Esta história me faz lembrar de um caso trágico que ilustra bem esta questão.

Bob Marley era adepto da religião rastafári. Esta religião proclama Hailê Selassiê I (uma homem normal que viveu e morreu no séc. XX como tantos outros), imperador da Etiópia, como a representação terrena de Jah (Deus). Em 1977, Bob Marley descobriu que uma ferida que ele achou ter feito durante um jogo de futebol, era na verdade uma espécie de câncer de pele, chamado melanoma maligno, que se desenvolveu sob sua unha do dedão do pé. Os médicos o aconselharam a ter o dedo amputado, mas Marley recusou-se devido aos princípios rastafaris que diziam que os médicos são homens que enganam os ingênuos. Além disso, a religião não permitia a amputação de qualquer parte do corpo (incluindo cabelos e, claro, seu dedo). Quando a coisa começou a ficar feia, qual foi a solução? Mudar de religião! Para uma que permitisse a amputação! Assim, segundo seu filho Ziggy Marley, Marley se converteu ao cristianismo antes de morrer. Quanta fé.

Pois é assim que funcionam as coisas. Umas religiões deixam, outras proíbem. E as pessoas vão escolhendo as que mais lhes satisfaz. É como ir a um supermercado de ideologias: tem de tudo. Só não me venham querer impor a sua sobre a do próximo. Porque isso só gera discórdia, guerra, cismas, etc. As religiões não estão aqui para unir as pessoas. Muito pelo contrário: elas vêm aqui para segregar ainda mais as pessoas em diferentes grupos.

Se a Igreja tem o direito de expressar sua posição anti-aborto neste caso, estou aqui em nome de tantos ateus defendendo a posição pró-aborto (que maravilha a liberdade de expressão num estado laico, não?). Eu JAMAIS iria impor minha vontade, apenas revelá-la. Diferente da Igreja, conforme noticiado na mídia. O correto, é que cabe às vítimas de tudo isso, uma criança de 9 anos e sua mãe, escolherem o melhor para si. A igreja precisa se preocupar em salvar a alma de seus próprios padres pedófilos e estupradores, antes de partir para a santa cruzada pela salvação da alma dos que ainda nem nasceram (e que, talvez, nunca venham a acreditar na religião do arcebispo).