
Há certa coerência naquilo que chamamos de “moda”. Por diversos fatores, as roupas e acessórios que nos tornam atraentes hoje serão motivos de chacota daqui alguns anos. Não estou falando da moda detalhista, que dita qual o melhor biquíni do verão. Estou falando de uma forma mais abrangente. Se os nobres de antigamente usavam roupas pomposas (que eu sempre achei muito elegantes), hoje em dia vestem ternos/vestidos. Se a calça boca de sino era sensação em meados do século XX, hoje perdeu seu espaço. E é esta a moda que interessa para a maior parte da população: a de longo prazo. Afinal, se nem todos fazem muita questão de estarem sempre em dia com o mundo fashion, ao menos se preocupam em não parecer anacrônicos. Isso porque se parecer um pouco com as demais pessoas é também uma questão de empatia.
É por isso que vejo com repulsa a moda extravagante que desfila em passarelas milionárias. Enquanto arte com roupas, o mundo da moda está dentro da sua essência. Mas, enquanto moda para o dia-a-dia, há um abismo separando aquilo que é ovacionado pelo público GLS especializado e o que se usa para rotinas diárias e mesmo festas. Com exceção de uma parcela mais excêntrica, as pessoas tendem a usar roupas que lhes tornem atraentes, mas sem perder a discrição. Valorizar as curvas (ou escondê-las!) e usar tons harmônicos entre si, faz das roupas um cartão de visita mais aprazível de se entregar por aí.
Mas não bastando ver modelos ganhando milhões para ostentar o ridículo como se fosse o belo, temos ainda estilistas que perderam até o bom senso. Eles usam pele de animais para confeccionar vestidos. Há muito tempo atrás, precisávamos da pele dos animais para suportar o frio. Hoje dominamos técnicas que nos permitem sermos mais humanos e menos cruéis, fazendo roupas eficientes para todas as ocasiões sem precisar matar nenhum animal. Desde então, vestir um ou mais cadáveres e achar isto “chic” só expõe o grau de evolução em que a mente destas pessoas estacionou. Elas ainda vivem no tempo das cavernas. São cemitérios ambulantes ostentando a morte como sinal de sucesso ou prosperidade. Mas a morte representa o fim, não o ápice, de qualquer coisa neste ciclo da natureza.
Recentemente, na London Fashion Week, o estilista francês Charlie Le Mindu apresentou uma peça inusitada. Um chapéu (na verdade, parece mais aquelas touquinhas que colocamos em crianças contra o frio, mas ele é o “artista”, então se ele está dizendo que é um chapéu...) feito com ratos mortos. A explicação da peça me comoveu profundamente:
"Gosto muito de ratos. Como não é o caso de todo mundo, queria mostrar às pessoas como eles podem ser bonitos"
Ah... quanta bondade. Mas que coração imenso tem o “Seu Carlos”. Como eu não pensei nisto antes? Por que não matar aquilo que amo e expor o cadáver aos demais, de forma que todos percebam o quanto eu gosto daquilo? Genial. Tenho uma idéia. Eu gosto dos estilistas. Sério. Mas as pessoas costumam menosprezá-los. Eu os acho bem criativos. Vou fazer assim. Eu vou fazer a árvore genealógica da moda. Vou matar os estilistas (machos, fêmeas e indecisos), um por um, e espetar suas cabeças nos galhos das árvores e apresentar isso ao mundo para que as pessoas se sensibilizem e vejam que eles podem ser bonitos. Será que me julgarão como artista promissor ou irei para o corredor da morte por ser um serial-killer?
