A tragédia em Santo André mostra a tragédia que é o Brasil

21/10/2008

Em Santo André ocorreu uma tragédia este fim de semana. Um louco e machista fez a própria ex-namorada de refém. Como nos antigos “crimes de honra”, Lindemberg Alves, 22 anos, se sentiu no direito de impedir que a garota Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, pudesse seguir sua recém-iniciada jornada neste planeta na companhia de outro homem. Ele a matou com um tiro na cabeça. Mas esta é apenas mais uma história de tragédia passional. Isto não reflete as violências das cidades, nem o mundo caótico em que vivemos.

O chocante do caso é fruto da cobertura da mídia. Sensacionalista e alvoroçada, chega ao cúmulo de nos informar como é a cela onde está o seqüestrador: “O espaço é de cerca de nove metros quadrados, o colchão é colocado no chão e apenas uma mureta separa o vaso sanitário da cela”. Ou ainda que a outra vítima do caso, Nayara Silva, também baleada pelo delinqüente, queria que o jogador de futebol Alexandre Pato fosse visitá-la. E como no caso Isabella Nardoni, chocante mas também de natureza passional, vemos uma comoção popular de gente que não tem o que fazer, facilmente manipulada comovida pela mídia, comparecer em peso no velório de uma desconhecida: mais de 11000 (sim, onze mil!) foram prestar homenagens.

“Alguns reclamam que a passagem ocorre muito rapidamente e, por isso, não é possível se despedir da menina”. Despedir-se de quem? Você vê alguém na TV e já se acha íntimo para ir ao velório prestar condolências? Cadáver e curiosos são estranhos entre si. Um não tem nada a ver com o outro! É o cúmulo do sentimentalismo novelesco, pré-fabricado, comprado de uma caixa que emite luz. Uma emoção falsa, vazia de sentido e valor. Mas espere! “Nove pessoas precisaram de atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) no cemitério”. A coisa é mais séria do que pensamos, você diria. Tem gente até passando mal! Isso não muda nada. Não quero ser preconceituoso, mas isso soa comportamento de pobre. Não o financeiramente pobre. O espiritualmente pobre. Vazio de personalidade toma para si a dor alheia que não lhe pertence. Na falta até mesmo de problemas, compra o dos outros. A vidinha pacata, miserável e improdutiva suga como um vampiro todo e qualquer motivo para sair da cadeira e sentir-se parte do mundo. O mundo não precisa de gente assim.

Enquanto isso há um sério problema acontecendo hoje. Esse é de verdade. É por este que milhares de pessoas deveriam se mobilizar, pois, diz respeito a todos. O diretor da penitenciária de segurança máxima Gabriel Ferreira Castilho (Bangu 3), tenente-coronel José Roberto do Amaral Lourenço, de 41 anos, foi assassinado ontem na Avenida Brasil. Os criminosos dispararam mais de 60 tiros contra o carro de Lourenço, que estava sem escolta. Nada foi roubado. Lourenço foi o sétimo membro da direção de presídios fluminenses a ser assassinado, desde setembro de 2000. É o crime ditando o que a polícia pode ou não fazer, num país onde a lei protege o criminoso e penaliza o cidadão. Enquanto o povo desmaia em velórios de estranhos que nunca viram na vida, o Brasil morre lentamente numa cova para onde pouquíssimos brasileiros estão olhando. A marcha dos ignorantes passa rente ao buraco e derruba cada vez mais terra, sepultando um país que agoniza sem a ajuda do povo, que está preocupado com uma história de amor novelesca de final trágico, infelizmente.