Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Ontem ocorreu um fato histórico na Bovespa. O circuit breaker, mecanismo automático de interrupção dos negócios em caso de forte queda, foi acionado (entenda a importância bolsa de valores). Isso tudo por temor de que a crise dos EUA não termine tão cedo. Mas afinal, por que a crise é tão séria? O que tudo isso, aliás, pode influenciar na sua vida? Para falar disso, precisaremos conhecer um pouco mais da maior potência econômica, militar e política de toda a história da humanidade: os Estados Unidos da América.

Com pouco mais de 300 milhões de habitantes, os EUA possuem um PIB de aproximadamente US$13,8 TRILHÕES. Para efeito de comparação, os países da União Européia (num total de 27 países até 2008, incluindo 4 países do G8 – grupo dos países mais ricos do mundo e mais a Rússia - que são Alemanha, Itália, França e Reino Unido) é de US$16,8 TRILHÕES. Como se vê, sozinho os EUA produzem quase o mesmo que todo o bloco europeu. Sozinho, os EUA importam US$ 2 TRILHÕES em produtos e serviços do resto do mundo. Pela bolsa de Nova York são negociados US$35 TRILHÕES em ações todo ano. Na bolsa NASDAQ, voltada para ações de empresas do ramo tecnológico, são outro US$17 TRILHÕES. Com estes números, fica evidente que quando falamos de EUA, falamos em valores realmente vultosos de dinheiro. É o centro do capitalismo.

E como começou toda esta crise? Há muitos sites dando ótimas explicações, a começar pela Folha. Faço aqui um resumo e compilação do que li em diversos sites e blogs de economistas, num passo-a-passo do que levou à crise:

1 - logo depois da crise das empresas "pontocom", em 2001, o Federal Reserve (Fed, o BC americano) passou a reduzir sua taxa de juros, a fim de baratear empréstimos e financiamentos e encorajar consumidores e empresas a voltarem a gastar;

2- funcionou! Os consumidores voltaram a comprar. Com a compra aquecida de imóveis, os preços destes começaram a subir. Os imóveis viraram fonte de investimento: compra-se barato hoje para, num futuro, revender por um preço maior e lucrar com a diferença, ou simplesmente ter a garantia de um investimento valorizado;

3 – cresceu a procura por hipotecas, ou seja, os americanos pediam dinheiro emprestado aos bancos dando como garantia de pagamento as suas próprias casas. Usavam este dinheiro para consumir mais e mais e, inclusive, comprar mais de uma casa;

4 –grandes empresas hipotecárias começaram a emprestar dinheiro para uma classe de mau-pagadores e mesmo de inadimplentes, a chamada “subprime”. Neste caso, claro, os juros pelo risco é maior, o que garante maiores lucros para a empresa que empresta o dinheiro. E estamos falando aqui em muito dinheiro em hipoteca. Para se ter idéia, Fannie Mae e Freddie Mac (duas grandes hipotecárias) detinham quase metade dos US$12 TRILHÕES em hipotecas dos EUA;

5 - a partir de 2001, as financiadoras deste segmento começaram a 'empacotar' este crédito e venderam estas carteiras para bancos de investimento. Desta forma, elas recebiam antecipadamente o valor das operações. E os investidores recebiam o valor emprestado e mais o juro que, no segmento subprime, é bem maior. Este retorno mais elevado atraiu gestores de fundos e bancos em busca de retornos maiores. Para se ter uma idéia, hoje, 4 em cada 5 hipotecas estão vendidas e só uma está com o credor original;

6 – mas o Fed precisou aumentar os juros e o consumo diminuiu e começaram a comprar menos imóveis, o que fez o preço dos mesmos começar a cair. Logo, aqueles títulos hipotecários começaram a perder valor. Surgiu, ainda, a inadimplência devido a um crescimento menor da economia, maior desemprego e custo de vida. As pessoas começaram a deixar de pagar as hipotecas;

7 – os bancos emprestam entre si dinheiro. Mas com o cenário de possível inadimplência nas hipotecas subprime, os bancos não queriam mais emprestar dinheiro entre si, pois um não sabia se o outro estava lastreado sobre o pagamento daquelas hipotecas que não seriam pagas, ou seja, podres. Com isso, o valor dos títulos lastreados em hipotecas despencou e o juro no empréstimo interbancário aumentou. É a chamada “crise de confiança”, ou seja, com medo de que o banco tomador do empréstimo não possa pagar, os bancos param de emprestar dinheiro entre si;

8– acontece que as pessoas e empresas precisam retirar dinheiro do banco. Querem fazer um saque para consumir, investir, ou pagar impostos, por exemplo. E os próprios bancos precisam financiar ou rolar dívidas deles próprios, contraídas em operações cotidianas. Então os bancos, muitas vezes, sem ter dinheiro próprio suficiente, precisam de crédito para cobrir temporariamente esta despesa. Com este crédito restrito devido aos altos juros, os bancos não conseguem garantir que haverá dinheiro para as pessoas retirarem e nem para pagar suas dívidas. E aí, diz-se que o banco está com problema de insolvência;

9 – aqui é quando entram os Bancos Centrais, injetando dinheiro a juros baixos para garantir dinheiro no caixa dos bancos. Se isso não resolver, a solução é abrir falência (e sim, se você tivesse dinheiro lá ele simplesmente sumiria) ou tentar que alguém compre o banco e garanta dinheiro no caixa. Diversos bancos tradicionais acabam sendo incorporados por outros ainda maiores, numa tentativa de evitar uma quebradeira e, pior, uma crise de confiança, aonde todos iriam aos seus bancos retirar seus dinheiros e aí todos os bancos quebrariam de uma só vez. Outro problema: se você perde seu dinheiro, você não compra. Então, há menos consumo, menos emprego e, assim, ainda menos dinheiro circulando. Agora, lembre-se que não são apenas pessoas que têm dinheiro em bancos: empresas também guardam seu dinheiro lá para pagamento de dívidas e investimentos. Dá para vislumbrar o estrago que seria se esse dinheiro sumisse;

10 – mas além dos bancos, as hipotecas que deixam de ser pagas espalham o prejuízo e desconfiança por toda a cadeia daqueles que compraram títulos lastreados em hipotecas. No início deste ano, investidores estrangeiros detinham nada menos que US$ 1,5 trilhão em títulos da Fannie Mae e Freddie Mac. Ou seja, os estrangeiros podem não receber o dinheiro e não conseguiriam honrar suas dívidas e pagamentos. Então, imagine que lá na China comece a ocorrer o mesmo. Os bancos de lá não sabem quem está lastreado sobre títulos hipotecários “podres” dos EUA, e decidem emprestar dinheiro a juros ainda mais altos, dificultando o crédito. Os bancos que não conseguem crédito o suficiente, acabariam falindo, o dinheiro sumiria do mercado, as pessoas consumiriam menos, produziriam menos, teria mais desemprego, etc.

11 - neste cenário onde as pessoas consomem menos sobra mais comida, petróleo, ferro. Se há mais oferta que demanda, o preço destas “commodities” cai. Se o preço delas cai, os produtores que possuem contratos que serão pagos no futuro, ficam no prejuízo. Afinal, você produz sua commodity com os custos de hoje, mas no futuro ela fica muito mais barata e o pagamento que você recebe não paga nem o custo de produção. No vermelho, você precisa de mais dinheiro emprestado dos bancos, mas os bancos não estão mais emprestando tão facilmente e o produtor também pode vir a quebrar. E mesmo quando você consegue produzir, muitas vezes precisa de crédito para custear o envio da produção para outro país, por exemplo. E este empréstimo também ficaria dificultado em caso de retração da oferta de crédito. Com isso você não consegue vender por um preço bom, não cobre suas dívidas e demite funcionários. Menos dinheiro circulando, mais desemprego, menos consumo. E assim temos um ciclo infinito de mais desemprego e menos consumo - é a chamada recessão.

É importante frisar aqui que o crédito é muito importante no mundo capitalista. A escassez do mesmo faz as engrenagens emperrarem. Como a desconfiança é generalizada pelo mundo, todo o sistema capitalista pode sofrer um solavanco e entrar em recessão junto com o coração dele, os EUA, que foram irresponsavelmente os criadores de um buraco sem fim de empréstimos que poderá tragar o resto do mundo. Como se vê, o modelo neoliberal permitiu que os mercados ultrapassassem o limite da irresponsabilidade. E agora, para arrumar o prejuízo, será necessário dinheiro de quem não tem nada a ver com a história: dos contribuintes pagadores de impostos.

30 comentários:

Thera Fajyn disse...

É bom ter um resumão desses por perto para ficar menos perdida nessa história toda! ;)

Anônimo disse...

Parabéns
Ficou muito bom

Anônimo disse...

Muito esclarecedor. Me ajudou a entender a situação e sua seriedade.

Anônimo disse...

Texto claro e objetivo. Parabéns.

Moi! disse...

Explicaçao nota 10. Ficou tudo mt claro. Agora da pra apavorar pq qd nao se tem noçao da gravidade, nao ha muito com o que se preocupar.

Gabriel disse...

Parabéns
O resumo ficou muito bom, esclarecedor =D

Anônimo disse...

ótimo explicação tirou muitas dúvidas minhas, e creio que de muitas pessoas.

Alex disse...

muito bom, otima explicação, agora sei que temos muita chance de nos ferrarmos bonito nessa historia !

Clarisse disse...

obrigada! salvou minha vida =D

Richard disse...

Claro e objetivo! Parabens Edu.

Priscila disse...

Muito bom mesmo!

Rafael disse...

Muito bom esse resumão! Estava realmente perdido em meio a este caos...não estava entendendo direito o que estava acontecendo...o reflexo dessa crise está em todos os cantos, na empresa onde eu trabalho já estamos sentindo o peso de tudo isso...o mundo virou um "Pandemônio".
Parabéns ao blog e seu idealizador!

Anônimo disse...

nossa ficou otimo,esse resumo e muito bem explicdo parabéns eu estava perdida sobre essa crise... e esse resumão me ajudou mto em um trab da escola
brigadão e parabens !!!

Eline - Fortaleza/ce disse...

Diante de toda essa confusão na economia muitas informações são veiculadas e acabamos perdidos no que diz respeito ao início/motivo desse caos que tornou-se mundial,o que pude ler aqui foi muito importante para a formação de uma visão crítica sobe tudo o que está acontecendo.
Obrigada e parabéns.

Charles Michel disse...

Ficou muito bom]
me ajudou muito num trabalho da escola

parabéns

Cyberzero7 disse...

Muito boa explicação!!
gostei!!

swianny disse...

Adorei a explicação. vc conseguiu explicar um texto enorme de uma forma lacônica e clara, o q é mt difícil de se fazer.

Parabéns pelo trabalho e obrigada por exclarecer de forma tão clara toda essa situação.

swianny disse...

xii! Escrevi errado. É esclarecer, deculpa aí!

Augusto disse...

Muito boa essa sua explicação, eu estava interessado em saber mais sobre essa história, me ajudou a entender a situação.

Parabéms! ;D

Daniel disse...

Parabens amigo, Texto bem resumido objetivo e facilmente entendido por qualquer um.

Anônimo disse...

mto bom, vou usar no meu trabalho.
ñ sabia nd e agora sei!!!
valeu!!!!

Anônimo disse...

Obrigado, precisava para um trabalho de escola e me ajudou melhor ate q a Folha que diz ser tao esclarecedor mas eu nao entendi nada.Parabéns !

Anônimo disse...

Devo confessar que não aprecio muito ler artigos , mas esse com certeza esse esclareceu muitas das minhas duvidas . Parabens! :D

Anônimo disse...

Esse texto foi esclarecedor. Parabéns!

Anônimo disse...

muito bem esclarecido! vou fazer uma pergunta a REDE GLOBO como uma das maiores emissoras de televisão como ela se comporta neste meio ela ganha com isso ou esta perdendo tambem

Anônimo disse...

Parabens!!!! Simples... esclarecedor!!!!
Me ajudou a sair do escuro sobre essa parafernalha toda.
Estou no Japao e a coisa aqui é mais que feia.

Anônimo disse...

Parabéns, é um texto muito bom!

Roger disse...

A seriedade na qual você abordou o assunto, a forma sucinta de explicação, e principalmente, criar condição para todos os públicos entenderem o que estão lendo, cria para esse artigo, na minha opinião, o status de perfeito. Realmente muito bom, Parabéns.

Marcos Vinícius disse...

Muito bem feito o artigo.

Anônimo disse...

Esse vídeo resume muito bem também, e tem algumas contradições com o que você disse no post...
http://crisisofcredit.com/
Quem está com a razão? =P