Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

21/01/2012

Eu não gosto da religião organizada. Ainda que traga alguns benefícios, a balança da história pesa contra sua existência. Milhões pereceram em guerras religiosas ou que, entre outras coisas, tinham a religião como um dos componentes da discórdia entre dois ou mais grupos. Além disso, tem ainda o uso político que clérigos fazem da religião, nem sempre em prol de coisas construtivas.

Ainda assim, eu seria o primeiro a defender o direito de uma pessoa de praticar sua fé (desde que num âmbito privado). Se a pessoa quer orar para seu deus, que o faça em paz e na certeza de que ninguém lhe prejudicará por isso. Para sintetizar este pensamento, cito o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos que estabelece:

“Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.”

É importante frisar: as pessoas podem sim manifestar sua religião. Elas podem viver de acordo com os preceitos que julgam corretos. Se as mulheres decidem deixar o cabelo crescer e passam a usar saias na altura do joelho, ou se cobrem o corpo inteiro com uma burka, ou se os homens se abstém de sexo antes do casamento ou de carne de porco, não importa: as pessoas devem podem viver à sua maneira, desde que observados os direitos do próximo.

Mas alguns religiosos parecem não se conformar com o fato do vizinho venerar outro deus. Pior: há aqueles que não admitem que seu deus seja adorado de uma forma diferente, “herética”, àquela que a pessoa julga ser a correta. Este tipo de intolerância religiosa está acontecendo em diversos lugares do mundo neste momento, mas na Nigéria ganha contornos de guerra civil.

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12 previsões dos místicos para 2012

10/01/2012

Começa mais um ano e com ele vem as previsões para 2012. Estou falando daquelas profetizadas por místicos de toda sorte: numerólogos, astrólogos, babalorixás, ciganos, etc. E nada melhor do que acompanha-las para ver se eles realmente irão acertar, certo?

Claro que não tem como acompanhar aquelas previsões do tipo: “Este é um ano de mudanças...”, ou ainda, “Este ano reserva muitas surpresas para o signo de [seu signo aqui]”. Eu queria algo mais certeiro, mensurável. Qual time de futebol será vitorioso este ano? A economia desabará de vez ou não? Para isso seguem as previsões e as fontes conforme observadas em Janeiro (não podemos garantir que elas estarão acessíveis ano que vem, sabe como é).

Sugiro aos que tiverem tempo (e curiosidade) entrarem nas fontes. Verão como é difícil extrair uma previsão assertiva, que não esteja envolta nas negras nuvens dos mistérios, dubiedades e generalizações. Ou, simplesmente, uma previsão que diga algo além do óbvio.

1 - Para o Brasil será um apogeu, o topo, será incrível a fama da presidente Dilma, que poderá ter poder de decidir, inclusive questões pertinentes ao âmbito mundial. Por causa de sua influência, após junho 2012, haverá uma reviravolta, uma conciliação política de lideranças, por intermédio dela, vejo que se destacará com força de representação política e econômica. Enquanto no 1o Semestre haverá rusgas, humores tensos, até violência e agitações em geral. No 2o Semestre, será um ciclo de sucesso sem conflito com muito pouca violência, mais tranquilidade e consciência social. [Fonte: STUM]

2 – Segundo Dimitri Camiloto, A crise da Europa deve durar mais uns 4 ou 5 anos. Isso é devido à quadratura entre Urano (em Áries) e Plutão (em Capricórnio), semelhante ao que ocorreu na crise de 29, início da década de 30 do século passado. O Brasil não será afetado porque somos especialmente beneficiados quando temos planetas lentos em signos de terra. [Fonte: G1]

3 – Entre 24 de Janeiro e 14 de Abril, a presidenta Dilma deverá ter muito trabalho no governo. Isso é porque Marte estará em Virgem. Isso é um movimento retrógrado, o que indica que a presidente deverá voltar atrás em algumas coisas. [Fonte: G1]

4 - A numeróloga Aparecida Liberato diz o ano será uma mudança de energia. “O número de 2012 será o 5. Essa energia indica que o ano que vem será um ano de inquietação e de instabilidade, em que aquilo que foi planejado não acontece”. Em relação ao Brasil, o ano será o de número 2. Um ano de ajustes mais lentos. “É um período de transição que também conta fatores externos”, afirma Aparecida. A numeróloga revela que as questões econômicas irão afetar o Brasil e que o país terá uma desaceleração do crescimento. “O Brasil irá tentar sobreviver”, prevê a numeróloga. [Fonte: Estrela Guia]

5 - A astróloga Mari de Morais prevê que o time do São Paulo só voltará a ter sucesso quando Rogério Ceni se aposentar. [Fonte: Esporte UOL]

6 – Ainda segundo Mari, os times paulistas também não devem ter um ano muito brilhante. O Corinthians cairá nas quartas de final da Libertadores e pode vencer no máximo o Paulistão, enquanto Santos e Palmeiras passarão o ano em branco. [Fonte: Esporte UOL]

7 – Mari diz ainda que a seleção brasileira também pode passar por mudanças. Ela afirma que Mano Menezes não resistirá ao fracasso nas Olimpíadas de Londres e será demitido após naufragar em mais uma tentativa de conquistar uma medalha de ouro. A astróloga afirma que Muricy Ramalho e Vanderlei Luxemburgo serão os candidatos naturais a suceder o atual técnico.[Fonte: Esporte UOL]

8 – Ainda no campo do futebol, a astróloga diz que 2012 será pródigo para os clubes cariocas, que devem faturar as principais competições nacionais e internacionais. A astróloga afirmou que o Flamengo será campeão brasileiro e o Vasco erguerá o troféu de campeão da Libertadores e ainda fatura o título carioca. Ao Botafogo e Fluminense restará o papel de coadjuvantes dos rivais. Menos pior para o tricolor das Laranjeiras, que deve conquistar a Taça Guanabara e irá se garantir na Libertadores de 2013 por ficar no G4 do Brasileirão do ano que vem. [Fonte: Esporte UOL]

9 – Mas a cigana Sara vem estragar a festa dos times cariocas. Ela diz que há grande chance do Corinthians “estar conseguindo” a vitória. O Palmeiras, em compensação, deve cair para a 2ª divisão do campeonato. [Fonte: TV UOL]

10 – Segundo a sensitiva Márcia Fernandes, Rafinha Bastos irá trocar de emissora em Março. A título de curiosidade, ela diz que Demi Moore “é” o pacto com o inferno. Diz que é manipuladora, possessiva: uma bruxa no jargão do meio. Ela diz que Luis Inácio Lula da Silva também “é” o pacto, e só chegou onde chegou graças as conversas que tem com os seres infernais e que lhe beneficiaram nesta caminhada. [Fonte: Astral da Semana]

11- Ainda segundo a sensitiva, infelizmente, apenas um milagre fará com que Reinaldo Gianecchini e Hebe Camargo superem suas doenças e passem deste ano. [Fonte: Astral da Semana]

 

E como não poderia deixar de ter, para fechar a lista, a profecia definitiva (desta vez, vai!) da chegada de Jesus Cristo e do fim do mundo. Ou quase isso...

12 - De acordo com os movimentos Salvai Almas - que se diz católico - e o Creciendo en Gracia - que se apresenta como evangélico-, o livro do Apocalipse prevê que, em 2012, o planeta sofrerá um colapso com resultados devastadores para a humanidade por conta da chegada de Jesus Cristo à Terra. Pelas profecias, até lá, mais da metade da população mundial irá morrer, seja por causa de guerras, epidemias, ou por meio de desastres naturais, como tsunamis, terremotos e chuvas de asteróides. Só se salvarão aqueles "puros de espírito" que creem no filho de Deus e nas escrituras bíblicas. Também sobreviverão alguns impuros que terão a chance de continuar no “paraíso” terreno se se converterem. Após tudo isso, a ordem será restabelecida com um mundo novo. O Salvai Almas não revela a data exata dessa vinda de Jesus, mas informa que os acontecimentos apocalípticos começarão a partir do dia 23 de maio. Neste ano, o movimento prevê que uma bomba atômica será lançada por Israel contra o Irã, dando início à 3ª Guerra Mundial. [Fonte: Correio 24 Horas]

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Gays poderão ser condenados a morte ou prisão apenas por serem como são

07/12/2011

Sabe quando aparece aquela pessoa “esclarecida” e diz que vivemos numa ditadura gay? Que eles estão se fazendo de vítima, etc? Pois é... descontando alguns excessos por parte dos homossexuais, a luta deles é para que não sejam sufocados do jeito que ocorre em outras partes do mundo.

Num mundo aonde cada vez mais religiosos radicais chegam ao poder, ideias discriminatórias igualmente radicais e perigosas podem virar realidade.

O vídeo abaixo fala sobre legisladores nigerianos, que preparam uma proposta de lei que condena casais gays que vivem juntos a 14 de prisão, endurecendo a legislação contra homossexuais no país.



A Anistia Internacional disse que a medida ameaça os direitos humanos básicos de um grande número de nigerianos.

O senador Ahmed Lawan afirma que se o casamento gay fosse liberado, a população diminuiria muito portanto a lei é para a proteção da humanidade.

Já em Uganda, o governo chegou até a propor a pena de morte simplesmente por ser gay. Ou seja, se seu filho nascer gay, ele está condenado a morte. Seria esse o amor cristão? Imagine viver num país onde, da noite para o dia, você passa a ser condenado a morte apenas por uma questão estritamente íntima! Você sempre pagou seus impostos, honra pai e mãe, ajuda na sua casa, trabalha honestamente, mas não importa: você é gay e irá morrer. Será que mesmo os religiosos radicais realmente querem um mundo assim?

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Sobre ser um ateu, um humanista secular

Carl Edward Sagan

Carl Edward Sagan, astrônomo, foi e ainda é um dos grandes expoentes do humanismo secular. Divulgou de forma apaixonada a ciência contra o obscurantismo religioso e pseudocientífico, além de ser um grande ativista contra a iminente guerra nuclear entre EUA e Rússia durante a Guerra Fria.

A definição de um ateu e de um humanista geram debates até hoje entre filósofos. Não sou eu quem se atreveria a estabelecer mais uma definição aqui. Mas vale mostrar, na prática, como eu me comporto perante o mundo, pensando como penso. Muitos, estou certo, se identificarão com certas atitudes e ideias. Talvez, isso ajude aos religiosos entender melhor estas visões de mundo.

Primeiramente, sou ateu. Mas isso é uma consequência, não uma causa. A observação do mundo, o estudo de biologia, geologia (não, não precisa ser nada muito aprofundado) e de outras matérias me levaram a concluir, quase com certeza, de que não há nenhum deus. Não posso dar certeza absoluta, pois, estaria sendo dogmático. Tampouco me definiria como “agnóstico”, pois, as evidências de que tudo tem causas puramente naturais superam com ampla vantagem as evidências (?) de que há um mundo sobrenatural, com deus ou deuses.

Após me perceber como ateu, aos poucos, meu o modo de olhar e interagir com o mundo mudou. Eu percebi, por exemplo, a interferência perniciosa da religião nos governos e me posicionei radicalmente contra este tipo de usurpação do poder secular. Por fim, e graças à LiHS, percebi que eu já era um humanista secular. Não, não precisei estudar nada para isso. Apenas observei o que definiam genericamente como tal e percebi que me encaixava. Neste caso, além de ateu, o que é ser um humanista secular? Não posso falar por todos, mas por mim. Então, vejamos...

Bem, não me importa que as pessoas não gostem de homossexuais, tanto quanto não me incomoda alguém preferir pagode à rock. Mas me incomoda quando tratam homossexuais de forma diferenciada, restringindo-lhes direitos e detratando-os por uma condição que, natural ou não (isso nem importa), diz respeito apenas a eles mesmos.

Também não me importa que as pessoas rezem. Não me incomoda, sequer, que me peçam para participar de uma breve oração antes de uma ceia de Natal. Mas me incomoda, profundamente, que insistam em evangelizar outrem e, no caso de insucesso, partir inclusive para a agressão, seja verbal ou física.

Não me incomoda que discordem radicalmente das minhas ideias. Não me importo, sequer, em descobrir que eu estava totalmente errado. Mas me incomoda quando deixam de discutir ideias e passam a discutir pessoas, partindo para a agressão desnecessária.

Além disso, não me incomoda que as pessoas tenham e pratiquem sua religião. Eu acho até bonitas aquelas igrejas góticas enormes, o coro de crianças, a arte sacra, etc. Mas me incomoda imensamente quando a fé é usada para manipular e extorquir pessoas que, na grande maioria das vezes, realmente acreditam nas boas intenções dos clérigos.

Acho aceitável, ainda, que as pessoas acreditem em dogmas absurdos. Muitas pessoas precisam disso, ainda mais em momentos de desamparo. Mas me incomoda, e muito, quando querem externalizar e universalizar dogmas, impedindo o avanço da ciência ou o tratamento igualitário que o Estado deveria dar aos seus cidadãos.

Como os religiosos, também me incomoda quando zombam desnecessariamente de figuras sagradas. É um tipo de provocação gratuita que não tem retorno positivo algum. Mas me incomoda muito mais quando um fanático decide levar isso até as últimas consequências, matando o zombador.

E o que mais me incomoda, e isso só veremos na religião, são pessoas clamando e declarando que só querem a paz. Só que, na contramão de seus desejos, guerreiam, matam, escravizam e humilham grupos inteiros. Que mundo querem construir assim?

É por causa deste tipo de imposição (pessoas querendo que o mundo seja exatamente do jeito que seus deuses exigem) que o humanista secular deve se informar, deve se posicionar e deve dialogar com a sociedade. Neste ponto, devemos entender que o diálogo deve ser amigável e conciliador, nunca um gesto de humilhação e desprezo pelo modo de pensar alheio. Infelizmente, nem sempre conseguiremos tudo o que consideramos ser melhor para o mundo, já que somos minoria absoluta. Mas se chegarmos ao meio-termo, já teremos cumprido brilhantemente o papel que nos cabe (ou, ao menos, cabe àqueles que decidirem se engajar na construção de um mundo mais secular).

Ser ateu e humanista secular é apenas um rótulo. Isso não implica em obrigações nem deveres. Mas eu, pessoalmente, me incomodo com uma série de coisas, conforme citei acima. E, definitivamente, não pretendo ficar parado. Dentro dos meus conhecimentos, dentro das minhas possibilidades, trabalho para mitigar aqueles problemas. Isso não me torna melhor nem pior do que ninguém. Apenas faz eu me sentir bem comigo mesmo por estar trabalhando por um mundo melhor, mais justo e pacífico para todos.

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Sem posts até Dezembro

10/11/2011

Olá,

Este blog irá parar de receber atualizações até o fim deste mês de Novembro devido aos afazeres escolares.

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Jornalista experimenta viver de acordo com bíblia por 1 ano!

12/10/2011

Isso não é uma montagem. A. J. Jacobs viveu por 1 ano em NY de acordo com preceitos bíblicos

Aqueles que interpretam a Bíblia ao pé da letra não apenas existem, como têm voz no gabinete presidencial dos EUA. São os fundamentalistas bíblicos. Eles crêem que o Universo foi criado em 7 dias de 24 horas e não duvidam que Matusalém tenha morrido aos 969 anos (e concebido um filho aos 187 anos). Mais: a palavra é a lei. Se os livros mandam dar o dízimo, lá se vão 10% da renda da pessoa; se os textos sagrados condenam a luxúria, é dever zelar pela castidade – a própria e a alheia.

O jornalista americano A.J. Jacobs, agnóstico, fez uma lista de 72 páginas com mais de 700 regras, do Gênesis ao Apocalipse, que arbitram a conduta do homem comum. Decidiu que passaria um ano vivendo de acordo com os preceitos bíblicos, interpretando sozinho as escrituras. E encarnou o “fundamentalista máximo”, como ele define na introdução do livro que resultou desse projeto, The Year of Living Biblically (“O Ano em Que Vivi Biblicamente”, ainda sem previsão de lançamento no Brasil).

A. J. Jacobs como ficou após sua experiência e como ele era antes da mesma

Jacobs, um judeu que se define como agnóstico no início do livro, dividiu sua missão da seguinte forma: apenas os 3 últimos meses seriam dedicados ao Novo Testamento, exclusivo dos cristãos; os 9 primeiros abordariam o Velho Testamento, que cobre um período histórico muito mais extenso e também é adotado pelo judaísmo. Muitos dos ditames dos livros mais antigos já são observados pelos judeus de correntes ortodoxas.

No decorrer do tal ano bíblico, Jacobs foi se metamorfoseando numa espécie de Moisés a perambular pelas ruas de Nova York. Parou de aparar a barba (Levítico, 19:27), usou azeite como condicionador capilar e passou a vestir uma túnica branca (Eclesiastes, 9:8). Ainda no quesito ves­tuário, livrou-se das peças cujo tecido misturava lã e linho, pois a lei sagrada proíbe tal combinação (Levítico, 19:19). Jacobs esperava ser o único americano do século 21 a cumprir tal norma, mas encontrou um inspetor religioso especializado em examinar as roupas alheias ao microscópio, para detectar as fibras proibidas.

Julie, a mulher de A.J., não ficou lá muito contente com o novo visual do marido, mas foi outra regra bíblica que balançou a casa dos Jacobs: a proibição de tocar mulheres durante o período menstrual (Levítico, 15:19). Da porta para fora, tudo era uma maravilha para Julie. Ele não encostaria em nenhuma outra mulher, sequer apertaria sua mão, já que não poderia saber se ela estava ou não naqueles dias – exceção feita para uma colega da redação da revista Esquire, que lhe enviou as datas por e-mail. Dentro de casa, porém, a coisa ficou feia. A regra é clara e diz que a impureza da mulher menstruada se transmite para onde ela repousar o traseiro. Para contagiar o marido com sua irritação, Julie passou a sentar em todas as cadeiras do apartamento. Nosso herói não teve outra saída senão comprar um banquinho portátil que, quando dobrado, vira um cajado. Nada mais bíblico.

A esta altura, você já deve ter notado que uma boa parte das citações deste texto tem origem no Levítico. Esse é o livro que descreve o episódio em que Deus chama Moisés para o topo do monte Sinai e lhe dita os 10 mandamentos. Mas a coisa não acabou aí: Moisés passou 40 dias escutando as leis que o Senhor tinha a passar para o povo de Israel. Algumas diziam respeito à alimentação. Porco não pode (11:7). Coelho não pode (11:5). Escargot não pode (11:30). Camarão não pode (11:12), independentemente do tamanho – por acreditar que existam crustáceos microscópicos na água encanada de Nova York, alguns rabinos de lá recomendam o uso exclusivo de água mineral. [NE: Ok, desta eu não sabia!]

Jacobs obedeceu a todas as proibições.Mas o que de fato chamou sua atenção foi um alimento permitido: insetos saltadores (Levítico, 11:22). E por que diabos (ops!) comer grilos e gafanhotos? “A única referência a esse hábito na Bíblia é a história de são João Batista, que sobreviveu à base de gafanhotos e mel”, diz Jacobs no livro. O autor, então, agiu como o santo: encomendou uma caixa de bombons de grilo e, mui biblicamente, repartiu a refeição com um relutante amigo. Nojento? Talvez, mas nada mais que isso.

Já a ordem bíblica para apedrejar adúlteros (Levítico, 20:10) induz ao crime de assassinato. O sagaz Jacobs encontrou um jeito para obedecer à lei divina sem cair nas malhas da lei mundana. “A Bíblia não especifica o tamanho das pedras”, afirma. O que ele fez, então? Encheu o bolso com pedregulhos e foi à cata de uma vítima, o que deveria ser a parte mais difícil da tarefa. [NE: Solução sensacional!] Eis que um desconhecido de 70 anos ou mais agrediu verbalmente nosso aspirante a beato, perguntando por que ele “se vestia como uma bicha”. Jacobs explicou que estava lá para apedrejar adúlteros. “Eu sou um adúltero”, disse o homem – e levou uma pedrada de leve no peito. Ponto para o vingador bíblico.

Manter escravos também não pega muito bem no Ocidente do século 21, mas era prática corrente em todo o mundo na Antiguidade. O Velho Testamento, inclusive, traz instruções para espancar o servo sem causar sua morte imediata (Êxodo, 21:21) e recomenda não arrancar seu olho (Êxodo, 21:26), sob pena de ter de libertá-lo. Jacobs já havia desistido do personal escravo quando recebeu o seguinte e-mail: um universitário se oferecia como estagiário particular. “Qual é a coisa mais próxima da escravidão nos EUA?”, pergunta o autor. “Estágio não remunerado”, responde ele mesmo. [NE: E não é que é mesmo?] “Caiu do céu.” O rapaz aceitou a condição do escritor – que exigiu chamá-lo de “escravo” –, mas o pior castigo que recebeu foi tirar algumas cópias xerox.

Para que fazer tudo isso, afinal? O apedrejamento e o escravo foram apenas brincadeiras – embora o estagiário tenha realmente caído do céu. De resto, Jacobs não se ocupou somente de costumes exóticos e bizarros para faturar com o livro (a honestidade bíblica o obrigou a dizer que esse era, sim, um dos motivos de seu projeto). Ele impôs a si mesmo uma rotina de rezas (Salmos, 105:1), de caridade (Lucas, 11:41), de respeito às tradições de seu povo e aos idosos (Levítico, 19:32). Até palavrão ele parou de falar (Efésios, 5:4).

Essa parte menos espetacular do ano bíblico de Jacobs foi justamente a mais difícil. Para reprimir a luxúria (Oséias, 4:10), o autor cobriu com fita adesiva as imagens de potencial apelo sexual de sua casa – inclusive a foto de uma mulher vestida de gueixa numa caixa de chá. Não funcionou. O método mais eficiente de resistir à tentação, segundo ele, era pensar na própria mãe (aqui temos um claro abuso do voto de honestidade do autor).

Livro onde o jornalista relata sua experiênciaTambém a cobiça (Êxodo, 20:17) foi dura de controlar. Um dia, Jacobs listou as coisas que cobiçara desde a manhã: o cachê que outro escritor cobra por palestra, um computador PDA, a paz mental do fulano da loja de Bíblias, o jardim da vizinha, George Clooney e o roteiro do filme Como Enlouquecer Seu Chefe, de Mike Judd. E isso ele escreveu às 2 horas da tarde.

O maior desafio de A.J. Jacobs, contudo, foi a fé – que, convenhamos, é um requisito e tanto para ser plenamente bíblico. O escritor do início do livro é um homem de 38 anos, com um filho de 2 anos e uma enorme vontade de aumentar a família (Gênesis, 1:22). Ele não tem fé, mas sente falta de um alicerce moral para o próprio lar e mergulha na religião, um terreno desconhecido. Nos primeiros meses, sente-se desconfortável ao rezar; perto do fim do projeto, experimenta o êxtase místico – dançando feito um rabino louco ao som de Beyoncé, na festa de 12 anos (bat mitzvah) de uma sobrinha. Mas ainda se declara agnóstico.

Aparentemente, o cara conseguiu encontrar o sentido que buscava. E uma explicação, embora nem sempre convincente, para cada uma das regras bíblicas. A enorme barba, por exemplo, serve para indicar que se trata de um homem de paz. Um guerreiro nunca a usaria, pois o inimigo se agarraria aos seus pêlos – assim lhe disse um líder religioso em Jerusalém.

Jacobs encontra sentido até no mais estapafúrdio dos mandamentos, que ordena decepar as mãos da mulher que agarrar “as vergonhas” do oponente de seu marido em uma briga (Deuteronômio, 25:11-12). Aqui, a mensagem oculta é: a mulher causou vergonha tanto ao próprio marido (que venceu a luta injustamente) quanto ao inimigo dele. A interpretação rabínica das escrituras diz que a mulher que envergonha o marido deve pagar uma multa – a mutilação é metafórica.

Se os judeus aceitam como metáfora uma ordem divina e os cristãos ignoram muito do Velho Testamento – a vinda de Cristo teria anulado a necessidade de circuncisão, entre outras coisas –, quem segue a Bíblia ao pé da letra, de cabo a rabo? “Ninguém”, conclui Jacobs, “nem os fundamentalistas”. Quem se propõe a fazer uma leitura literal da Bíblia acaba sempre escolhendo o que vai obedecer.

Atualmente, Jacobs vai à sinagoga (sim, ele passou a frequentar uma) e planeja o Bar Mitzvah de Jasper, seu filho mais velho.

- “Ok, ok. A Bíblia mudou minha a vida” - reconhece.

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E quando a religiao faz bem… ?

06/10/2011

Pastor Tim Lucas, da Liquid Church

Durante o ataque de Israel à Faixa de Gaza em 2008, um dos piores já desferidos, todos tentaram fugir da região. Habitantes (indefesos e inocentes) quase ficaram sem médicos e pessoal de apoio. Entre as poucas organizações que se arriscaram ficando ali, estava a “Visão Mundial”, prestando socorro e auxílio às vítimas da barbárie israelense.

E o que seria esta organização? Uma ONG cristã de ajuda aos mais necessitados no combate à pobreza e injustiça. Pelo menos é assim que eles se definem em seu site. Mas o que me fez pensar uma vez mais no assunto foi outra notícia muito interessante e definitivamente surpreendente: um pastor estaria distribuindo o dízimo arrecadado pela sua igreja, a Liquid Church, aos fiéis em dificuldade financeira devido à crise dos EUA.

Isso abre espaço para o seguinte questionamento: como combater a religião se parte dela é benéfica?

Não me incomoda a religião enquanto crença individual. E, definitivamente, não me incomoda a religião que faz o bem, ainda que o motivo seja ganhar uns créditos para ter uma nuvenzinha maior no céu.

Padre Ottavio Posta, recentemente homenageado por Israel por ajudar a salvar judeus durante o holocaustoMesmo assim, imagino que se as pessoas fizessem o bem apenas por ser o melhor a ser feito, e não para cumprir um chamado divino, certamente todos ganhariam. Haveria o lado positivo de ajudar uns aos outros, mas sem o lado negativo das religiões (e olha que há uma lista enorme deste lado da balança).

Precisamos admitir, por exemplo, que os ensinamentos de Jesus Cristo (seja ele real ou simbólico) têm, em sua maioria, um incentivo à fraternidade, ao respeito e amor uns aos outros. É ele quem, contrariando uma tradição religiosa judaica, nega-se a apedrejar uma adúltera. Infelizmente, precisamos admitir, ainda, que o cristão deturpou o uso da imagem de seu fundador e tanto o cristianismo como outras tantas religiões trouxeram desgraças inomináveis usando seus dogmas como panos de fundo de infinitas querelas.

Sabemos, contudo, que muitas igrejas e religiosos praticam o bem. Ainda que as razões precursoras sejam obscuras, se o resultado final for pura e simplesmente a boa-ação em si, todos saem ganhando. O próprio pastor Tim Lucas, líder da “Liquid Church”, tem um ativismo que ajuda muitas pessoas pelo mundo. Talvez a igreja tenha este nome, justamente, porque se presta a perfurar poços de água potável em países africanos.

No Brasil, temos trabalhos sociais sérios realizados por religiosos em cadeias, clínicas de reabilitação e tantos outros. Ainda que seja uma muleta, ainda que esteja carregada de defeitos, se a religião tirar alguém de uma vida de crime ou de um vício, temos que levar isso em consideração e entender que, talvez, por muito tempo ainda precisamos dela por aqui. Não podemos prescindir da ajuda que só a religião é capaz de oferecer para pessoas seriamente fragilizadas, por quaisquer razões que sejam.

Não obstante, o combate e o enfrentamento ao lado invasivo, obscurantista, traiçoeiro, enganador e, por que não, belicoso das religiões deve prosseguir. Mas, se pudéssemos, será que valeria a pena acabar com as religiões mesmo se elas estivessem desprovidas de suas mazelas (uma suposição fantasiosa, conhecendo a religião como a conhecemos desde que o mundo é mundo)? Para além disso, devemos ajudar instituições religiosas (ou pautadas nisso) que praticam o bem, ou devemos enveredar por um novo caminho? Unir forças sempre traz resultados melhores, mas valeria a pena?

(unidade do Instituto Baccarelli doada pelo braço filantrópico da seita cristã Pró-Vida
ao custo de R$ 6 milhões. Centenas de jovens aprendem a tocar música
e ganham uma ocupação saudável no meio da favela de Heliópolis, São Paulo)

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